Cinema

‘120 Batimentos por Minuto’ é um filme cheio de vida contra a AIDS

Se em 2017 Moonlight – Sob a Luz do Luar se notabilizou pelo retrato verdadeiro sobre a descoberta da sexualidade e de ser negro, o drama francês 120 Batimentos por Minuto, vencedor do prêmio da crítica no Festival de Cannes, pode ser considerado um marco para filmes (e histórias) de combate à AIDS durante os anos mais extremos de epidemia e de pouca ação dos políticos e do poder público, que por muito tempo fizeram vistas grossas e não deram importância a uma problemática que deveria ser tratada como uma questão de saúde pública – como de fato acontece hoje em alguns países.

Dirigido por Robin Campillo, 120 Batimentos por Minuto acompanha o ativismo do grupo Act Up-Paris durante os anos 90 e seus protestos que chamavam a atenção da importância para a prevenção da AIDS e pressionava as autoridades por mais engajamento na busca por um tratamento que realmente apresentasse algum resultado. 120 Batimentos por Minuto é propositadamente educacional, tão didático de a tal ponto nos fazer lembrar do filme A Chinesa (1967) de Jean-Luc Godard, por suas cenas se passarem na maior parte do tempo em uma ampla sala de reunião usada pelo grupo ativista para discutir diretrizes, ações e ideias. Mas, principalmente, as reuniões eram acima de tudo uma forma de também se sentirem vivos.

Se a montagem de 120 Batimentos por Minuto começa justamente por uma ação ativista que perde o controle para nos aprofundar naquilo que essa organização representa e a importância que tem, pouco a pouco essa edição vai nos aproximando de alguns personagens que fazem parte do grupo e relatando suas histórias pessoais de vida. A começar por Nathan (Arnaud Valois), membro mais recente e único que não é soropositivo mas que se une ao Act Up motivado por uma paixão antiga que morreu justamente de AIDS. O convívio diário o leva a se apaixonar por Sean (Nahuel Pérez Biscayart), soropositivo e um dos mais atuantes juntamente com Sophie (Adéle Haenel, do filme A Garota Desconhecida) e Thibaut (Antoine Reinartz).

120 Batimentos por Minuto consegue administrar as tramas pessoais que acontecem fora do Act Up sem nunca se esquecer que o movimento é uma extensão das suas vidas, ou seja, que eles levam para as suas relações e fazem parte dos cotidianos deles. Por isso chama atenção a capacidade do filme em conseguir dar fluidez à narrativa, mesmo naqueles momentos onde a história aparenta estar concentrada demais nas discussões ao invés nas ações educativas que o grupo tanto preza – que são pontuadas por campanhas quando eles invadem uma escola e distribuem panfletos alertando sobre o perigo da AIDS e como evitá-la ou quando arrombam uma empresa de manipulação responsável por desenvolver os novos remédios. Essa fluidez se vê claramente representada nas sequências que são transformadas quase que espontaneamente em baladas de música eletrônica, revelando um alívio para se deixar expressar um lindo momento onde esses personagens estão vivendo e sendo livres.

Uma coisa que 120 Batimentos por Minuto consegue ser, aliás, é espontâneo. Os diálogos em meio às discussões e debates sobre a doença fluem como se estivéssemos em um documentário sendo exibido em uma sala de aula, naquela época em que algum professor de alguma disciplina resolvia levar um desses filmes bem educativos do canal Futura, por exemplo, para ajudar a ensinar e chamar atenção para algo que poderia ter passado despercebido em uma aula convencional. 120 Batimentos por Minuto lembra isso, sendo um retrato doloroso e emocionante sobre a AIDS e em como a doença causou tantas mortes sob o olhar passivo das autoridades.

Assista o trailer:

120 Batimentos por Minuto (120 Battements par Minute, 2018)
Direção: Robin Campillo
Roteiro: Robin Campillo e Philippe Mangeot
Elenco: Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois, Adèle Haenel, Felix Maritaud e Antoine Renartz
Duração: 140 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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