Cinema

'A 13ª Emenda' e 'Fogo no Mar' são documentários sobre as guerras do nosso tempo

Dois documentários, A 13ª Emenda (disponível na Netflix) e Fogo no Mar (vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim no início do ano), tratam de dois temas importantes e responsáveis por nos ajudar a compreender (ou a ver, ao menos) que as principais crises do nosso tempo passam longe de serem apenas de ordem econômica e financeira.

A crise dos imigrantes (Fogo no Mar) e do sistema judiciário americano (A 13ª Emenda) podem ser vistos por algumas pessoas como problemas menores frente à crise econômica e política instauradas aqui no Brasil. Entretanto, como parte de uma sociedade global, não podemos jamais dar as costas para essas situações que, mesmo não nos atingindo de frente, deve nos deixar incomodados.

É justamente isso que a diretora Ava DuVernay (Selma) consegue em seu documentário A 13ª Emenda. Mesmo com o crescente sentimento de impotência que a narrativa do seu filme nos leva a sentir, a produção causa um desconforto capaz de remexer o nosso estômago. Não faz pouco tempo o presidente Barack Obama se tornou o único da História (e em exercício da presidência) a visitar uma penitenciária. Tudo parte de uma campanha para tentar convencer os políticos americanos, e conquistar o apoio da sociedade, de que é preciso diminuir a população carcerária daquele país – que hoje já passa dos dois milhões (a maioria, negra).

Angela Davis em A 13ª Emenda.
Angela Davis em A 13ª Emenda. | Foto: Divulgação/Netflix

O título A 13ª Emenda é uma referência a uma emenda da constituição que garante a liberdade de todos, um movimento adquirido justamente para acabar com a segregação racial vigente nos Estados Unidos. Entretanto, essa opção cai por terra se o cidadão for considerado criminoso (seja por qualquer delito). E é aí que Ava DuVernay constrói toda a narrativa do filme, mostrando de forma contudente como os pequenos delitos passaram a ser vistos como crimes, jogando cidadãos (negros, pobres e de outras minorias, estabelecendo assim a relação entre o crescimento da população carcerária com a escravidão nos EUA) em um sistema carcerário onde poucos sobrevivem – e por trás muita gente lucra.

Ava DuVernay faz um retrato completo sobre a crise que temos acompanhado nos últimos anos que estoura sempre quando um negro é morto por força desproporcional da polícia – ou por simplesmente serem negros e levantarem suspeitas. Para investigar o porquê dessas práticas, a diretora estabelece diversos marcos cronológicos que ajudam a tornar a narrativa mais compreensível para quem não mora nos EUA (ou não acompanha tão de perto).

Assim, A 13ª Emenda é uma enorme reportagem investigativa sem medo de fazer acusações – e as provas e argumentos apresentados pelo documentário são concretas enquanto vemos tanta hipocrisia sendo dita bem à nossa frente. É um desses filmes definitivos para entender as raízes do conflito, feito por uma diretora que vem usando sabiamente a sua arte para nos provocar e debater esses assuntos.

Crise dos imigrantes é tema do documentário Fogo no Mar. | Foto: Reprodução
Crise dos imigrantes é tema do documentário Fogo no Mar. | Foto: Reprodução

Fogo no Mar

Um outro documentário importante lançado esse ano é o italiano Fogo no Mar, dirigido por Gianfranco Rosi. O filme se passa na ilha de Lampedusa (Itália) que recebe quase diariamente centenas de refugiados de todos os lugares, fugindo dos conflitos e enfrentando a morte para atravessar o mar com o intuito de sobreviver. A esperança é o que move essas pessoas na travessia. Os que sobrevivem chegam ao final já entre a vida e a morte, totalmente desidratados.

Gianfranco Rosi acompanha o cotidiano dos habitantes da ilha de Lampedusa em meio a essa chegada de refugiados. Mas nunca vemos essas pessoas “interagindo” ou lidando com essa situação. Rosi conduz o seu documentário rodeado pelo silêncio, que pode significar um luto pela morte de tantas pessoas que não conseguem completar a travessia ou representar justamente a angústia de ser uma situação a qual precisamos conviver (e às vezes sem poder fazer muita coisa para ajudar ou melhorar).

Documentário italiano venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim. | Foto: Reprodução
Documentário italiano venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim. | Foto: Reprodução

A população de Lampedusa, caracterizada pelo documentário ao acompanhar o garoto Samuele, vive a vida normalmente mesmo estando tão próxima da crise. Uma passagem marcante de Fogo no Mar (e muito angustiante) é o relato do médico de Lampedusa contando sobre o estado que alguns imigrantes chegam. A riqueza de detalhes com que ele conta é devastador porque ele é capaz de nos fazer sentir a mesma dor no estômago que ele está sentindo. Em um determinado momento ele diz “é dever de todo ser humano ajudar esses seres humanos”.

Tanto Fogo no Mar quanto A 13ª Emenda têm esse poder de mostrar uma situação que precisamos conviver mas que é necessário tomar uma atitude contra o que está acontecendo, e não apenas sermos passivos (como os próprios residentes da ilha são vistos, seguindo o cotidiano normalmente). Apesar de todos serem exibidos com profundo respeito pelo diretor Gianfranco Rosi pela vida que levam ao não se intrometer (ou julgar) em nenhum momento na narrativa do seu documentário.

Dois filmes fortes que nos lembram a importância de posicionarmos como sociedade se o desejo de todos é construir um futuro melhor do que este que, infelizmente, enxergamos no horizonte para o mundo que todos nós dividimos.

[Crédito da Imagem: Reprodução]

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