'A Amiga Genial', de Elena Ferrante, é leitura viciante

Não sou um leitor voraz e arrumo mais livros de comprar do que necessariamente tempo de lê-los. Nos últimos tempos, um agravante: tenho demorado meses para terminar um livro. Às vezes empaco em uma determinada parte e não consigo sair (como me ocorreu em O Pintassilgo, que agora vou retomar). Outras vezes é por pura dispersão mesmo, não conseguir me concentrar e pensar em tantas outras coisas que preciso fazer. No entanto, tive o prazer de ler em poucas semanas A Amiga Genial, da misteriosa escritora italiana Elena Ferrante e que faz parte da quadrilogia chamada Série Napolitana. No Brasil, o segundo livro História do Novo Sobrenome foi lançado recentemente, e mais uma obra Dias de Abandono encontra-se em pré-venda em toda a Internet

Isso demonstra a força que a autora conquistou rapidamente aqui no Brasil, que a partir da compra de direitos da editora Intrínseca, os próximos lançamentos se tornarão muito mais fáceis. E isso é algo que se repete em cada canto do mundo onde os seus livros ganharam traduções (e que se tornarão ainda mais famosos com a série de TV italiana ainda sem previsão de estreia). E não é por acaso, logicamente. A escrita de Elena Ferrante é ágil, objetiva, sem complicações e fisga o leitor desde as primeiras páginas. A partir daí, largar o livro é tarefa quase que impossível porque a história já te conquistou a tal ponto que te move a sempre querer ir adiante, a ler o que vai acontecer com aqueles personagens.

Foi exatamente isso que ocorreu comigo. Elena Ferrante, que no livro assume o nome de Elena Greco (mas ninguém sabe a identidade da autora exatamente, com exceção do seu publisher italiano com quem ela troca cartas de tempos em tempos), é a narradora da história de sua amizade com Lila, que ela começa a contar após o desaparecimento repentino da amiga que fugiu sem deixar rastros, cortou até seu rosto das fotos que tinha e ninguém sabe mesmo o seu paradeiro. Preocupado, o filho de Lila liga para Elena para contar sobre o acontecido e, assim, a amiga passa a revisitar as suas memórias daquele período.

O pano-de-fundo de toda essa trama, que começa em 1950, é a cidade de Nápoles ainda se recuperando do pós-guerra. O bairro em que Lila e Elena crescem lembra uma cidade qualquer do interior onde todos se conhecem e o grau de importância e influência são medidos através da função que cada um desempenha, como o marceneiro, o sapateiro e assim por diante. Além disso, não é um ambiente exatamente seguro (ou cordial) para as meninas. Muito pelo contrário: o bairro é hostil, pessoas estão sempre brigando, discutindo e querendo resolver os problemas na pancadaria. Um convívio tão próximo da violência deu a elas a urgência de terem um senso de realidade que, andando por bairros da classe alta de Nápoles, se percebia que nem todos tinham.

Uma história de amizade

Isso contribui e muito para entender como Lila e Elena cresceram, os seus desencontros (e encontros), as separações ocorridas em decorrência da obsessão que uma tinha pela outra e em como os seus caminhos, mesmo que fossem cada vez mais se afastando, pareciam que na verdade estavam querendo aproximá-las porque uma não conseguia viver sem a outra. Elena, por exemplo, teve a oportunidade de continuar estudando enquanto que a sua amiga Lila, por mais que fosse talentosa para os estudos, não conseguiu ir adiante por questões familiares. Mas Lila tinha atributos que deixavam Elena com inveja, forçando a existir entre as duas uma competição que deixava Elena sempre muito triste, com medo, receosa sobre o próprio corpo ou sobre as próprias decisões que tomava. Isso criou uma interdependência entre as duas protagonistas que se estenderam para todos os personagens que fazem parte do círculo social delas.

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Aos poucos, coleção de livros da autora italiana começa a chegar mais rápido no Brasil.

Em um artigo escrito para a revista The New Yorker, a crítica literária Molly Fischer diz que o que Elena Ferrante descreve em A Amiga Genial é que “amigos de infância que duram ao longo do tempo é como a sopa primordial das relações humanas, desarrumado e não formados, mas com as peças brutas para fazer qualquer coisa que possa vir depois”. E é isso que ocorre mesmo à medida que vamos consumindo as páginas, pois se em muitos momentos Lila e Elena pareciam longe uma da outra, há situações que ocorrem na vida de cada uma delas que as aproximam com o intuito de que, pelo fato de uma conhecer tão bem a outra e terem crescido juntas, isso possa dar algum conforto (ou uma segurança) para enfrentarem o que está à frente delas.

E é particularmente bonito de acompanhar isso. Elena Ferrante nos coloca em cada situação que cria na narrativa e nos provoca os mesmos questionamentos que ela estava sentindo à medida que escrevia. Isso porque continuamente eu me perguntava o porquê dela tentar tanto se provar para Lila mesmo quando estava tão nítido que ela estava fazendo as coisas bem. No primeiro momento desenvolvi uma resistência dentro de mim, como leitor, em querer aceitar aquilo. Mas aos poucos essa barreira se desfez porque entendi que isso estava no cerne da amizade entre duas meninas que estavam no processo de amadurecimento para se tornarem mulheres.

Duas passagens me chamaram atenção sobre isso. A primeira é quando Elena pede a Lila que revise um texto que ela deseja publicar. Lila aparenta empolgação com o pedido e corrige o que, a seu ver, merecia ser revisado. Mas depois pede que Elena não lhe mostre mais nenhum texto. “Porque me faz mal”, diz ela. No segundo, bem diferente desse, Lila pede que Elena nunca deixe de estudar e se oferece até para ajudar. “Você é a minha amiga genial, precisa se tornar a melhor de todos, homens e mulheres”, fala.

Terminei a leitura de A Amiga Genial desesperado para começar o segundo livro o mais rápido possível que eu puder. Enquanto isso, quero continuar pensando na história comigo mesmo e me deixar perceber qualquer nova impressão que possa surgir em minha mente. Porque é esse o tipo de ideia que bons livros despertam no leitor. E A Amiga Genial é definitivamente uma grande leitura.

[Crédito da Imagem: Divulgação]

Vinícius Silva
Sou formado em Jornalismo e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. O vício em Filmes, Séries e nas Artes em geral me levaram à escrita.

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