Cinema

'A Bela e a Fera' se perde na bagunça do próprio roteiro e não convence

Na mesma semana em que revistei o clássico animado da Disney A Bela e a Fera lançado em 1991, pensei que se a versão live-action dirigida por Bill Condon chegasse próximo do tom estabelecido na animação já seria o suficiente para ser considerado um bom filme. Mas a nova produção da Disney que estreou nos cinemas na última semana não chega nem próximo daquele filme e desperdiça o poder que a própria história em si tem ao não conseguir traduzir o sentimento que a trama desperta.

Se o desenho animado dirigido pela dupla Gary Trousdale e Kirk Wise equilibra a fábula do conto com esse sentimentalismo que conseguimos ver na tela naquele clássico de 1991, essa nova versão de Bill Condon se perde nos efeitos visuais, nos longos números musicais e tudo o que menos se vê no filme é algo realmente verdadeiro e genuíno na maior parte do que é dito e cantado.

A história, mundialmente conhecida, é sobre Bela (Emma Watson), uma jovem camponesa que deseja ver muito mais e por isso usa os livros para conhecer outras histórias e sair da vila em que mora, e a Fera (Dan Stevens), antes Príncipe que ao negar abrigo para uma velhinha é enfeitiçado e transformado na Fera, para que se lembre que ele só voltará ao normal quando souber amar e respeitar o próximo. Assim, todos os habitantes do castelo também são enfeitiçados e precisam se unir em ajudarem o Príncipe a enxergar a beleza interior das pessoas e a respeitá-las. Só assim suas vidas voltarão ao normal um dia.

Entre a animação e essa versão live-action há muitas mudanças que, talvez com um pouco mais de sabedoria, poderiam obter um resultado que desse sentido à história. Na maior parte dos momentos a impressão que fica é das sequências serem apenas jogadas sem qualquer responsabilidade ou preocupação de onde a trama pretende chegar, como naquele momento em que a Fera inexplicavelmente se irrita com Bela por ela estar apenas observando a rosa ou, ainda, na sequência quando Maurice (Kevin Kline) entra no castelo e a cena é construída apenas com o intuito de ser engraçada e perdendo completamente o propósito de ter chegado ali.

[Foto: Reprodução]

Isso nos leva a outro problema da história que é justamente quando vemos a Fera pela primeira vez, muito menos aterrorizante do que na animação. Além disso, o filme gasta até mais tempo estabelecendo as relações de amizade entre os objetos falantes do que propriamente acompanhando Bela através da sua desconfiança, solidão (falta do pai) e medo de estar presa em um castelo com uma criatura que ela não se sente confortável – e mesmo Fera em sua jornada de aceitar que Bela é a sua chance para voltar ao normal e é preciso saber como conquistá-la. Também por causa dessa confusão é uma pena que os números musicais, tão bem encaixados na animação, aqui se percam na exuberância de um visual que nunca dá importância ao que realmente importa: a história.

Aliás, de todos os números musicais é até triste dizer que o único que realmente me chamou atenção, pela coreografia e pela sequência criada, foi “Gaston”. Aquele momento tão clássico e esperado da dança entre Bela e Fera foi transformado em apenas “mais um” e posso dizer que chega a passar despercebido. Sobre a tal polêmica da cena gay de LeFou (Josh Bad), o fiel companheiro de Gaston (Luke Evans), fez mais barulho na mídia do que chega a ter importância para a história, não passando de qualquer outra sequência que já não tenhamos visto em outros filmes. Se as músicas na maior parte parecem vagas e igualmente jogadas como tudo que é feito no filme, a sequência do duelo entre Gaston e Fera é ofuscada por uma batalha desnecessária dos objetos falantes contra a população da vila.

Apesar de Emma Watson se esforçar em convencer como Bela, quem me parece mais confortável no filme é Ian McKellen (Cogsworth) ao saber o que deseja passar apenas com o trabalho da sua voz, conferindo melancolia e cansaço que representam o longo período que está preso ali. Já Dan Stevens, Kevin Kline e Luke Evans, não por culpa deles, são os pontos negativos ao se mostrarem tão perdidos quanto o próprio roteiro. É uma pena que a Disney tenha desperdiçado uma história tão bonita para embalá-la em um produto que vai atrair muito público e bilheteria, com certeza, mas não chega nem perto de convencer quanto a animação de 1991. Assista o trailer:

A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 2017)
Direção: Bill Condon
Roteiro:  Evan Spiliotopoulos e Stephen Chbosky
Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Stanley Tucci, Emma Thompson e Audra McDonald.
Duração: 129 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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