‘A Forma da Água’ celebra o amor e a diversidade em tempos intolerantes

Quando me preparei para assistir A Forma da Água criei uma certa expectativa para me emocionar – ainda que eu não seja um desses espectadores que se emocionam facilmente. Mas por se tratar de um filme do diretor Guillermo del Toro, alguém que consegue realizar filmes e nos faz sentir a sua obsessão e paixão pelo cinema deixadas em cada quadro que cria, imaginei que A Forma da Água mexeria mais comigo. Após dias de reflexão até finalmente começar a escrever, fui tendo a sensação de que algo faltou em A Forma da Água. E não sei explicar exatamente o que foi.

No entanto, a minha sensação da falta de algo não elimina a beleza e encantamento que tive pela história. Guillermo del Toro presta homenagem a filmes como King Kong e A Bela e a Fera à sua maneira de enxergar o mundo e introduzir seus personagens, normalmente colocados à margem, em uma sociedade que ao longo do tempo não aprendeu a se importar com eles – ou mesmo com os animais. É assim que conhecemos a história de uma mulher surda, Elisa (Sally Hawkins), e sua paixão por uma criatura que finalmente a enxerga sem se importar em como ela é externamente.

É isso que move a narrativa de A Forma da Água. Elisa tem a companhia da sua colega de trabalho e amiga Zelda (Octavia Spencer). Juntas elas são selecionadas para limpar o chão de um laboratório mantido pelo governo americano que realiza experimentos e tenta ganhar alguma vantagem competitiva em relação à Rússia, adversário do país naquela corrida que testou as capacidades de qual sistema sobreviveria e qual país seria a maior potência do mundo. A representação dessa obsessão está vinculada ao vilão Strickland (Michael Shannon), a encarnação do preconceito, violência e do comportamento agressivo que o homem branco tanto sente necessidade de se impor em relação aos outros.

Mas o sucesso do filme de Guillermo del Toro está, é claro, no conto de fadas que cria, uma marca da qual ele ficou reconhecido desde O Labirinto do Fauno, filme que catapultou a sua carreira e o fez tornar conhecido. Os momentos onde Elisa e o Monstro (Doug Jones) tentam se comunicar, o seu cortejo de oferecer ovos para ele comer ao descobrir que ele os aprecia, são lindas sequências de ternura e conquista que o filme solidifica muito bem quando alcança a sua metade final e as atitudes desesperadas feitas em nome do amor tomadas por Elisa e apoiadas por Giles (Richard Jenkins), o vizinho gay de Elisa e que assim como ela também sofre preconceito e não pode viver de acordo com os seus desejos.

A Forma da Água é um filme importante em meio aos tempos de intolerância que vivemos. Celebra o amor, a diversidade e tem uma forte mensagem positiva dentro de uma narrativa trágica, tensa e imprevisível. Até esse momento A Forma da Água nos leva por uma narrativa que simplesmente aceitamos seguir sem qualquer objeção. Mas quando o filme parte para a metade final, a história não consegue seguir com o mesmo ritmo e acaba perdendo um pouco de energia ao focar mais nos conflitos de Strickland do que se concentrar no que está acontecendo no centro da narrativa. Isso, no entanto, não tira a força de A Forma da Água e da sua linda história de amor.

Assista o trailer:

A Forma da Água (The Shape of Water, 2018)
Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael Shannon, Richard Jenkins, Doug Jones e Michael Stulhbarg
Duração: 119 minutos

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