Cinema

‘A Ghost Story’ agrada quando não tenta ser pretensioso e complexo demais

Me recordo de estar acompanhando o Festival de Sundance no início do ano quando o diretor David Lowery (Meu Amigo o Dragão) disse na coletiva de abertura que precisava fazer esse filme, tirado a partir de uma experiência pessoal na qual a casa onde viveu com a sua esposa parecia ser assombrada por fantasmas. Ele disse ter chegado a essa conclusão por causa dos sons estranhos que faziam no lugar, sendo esse o impulso para transformar esse medo na narrativa de um filme que, muito mais do que ser pessoal, trata-se também de um flerte do diretor com o cinema independente após estar a frente de blockbusters.

O que normalmente ocorre em narrativas sobre perda e de casas assombradas é acompanharmos a história através do ponto de vista de personagens que estão vivos e passando por esses medos e aflições ao perceberem que, aparentemente, não estão sozinhos. Lowery toma o caminho inverso: quando C (Casey Affleck) morre repentinamente, seu fantasma permanece preso à casa que ele dividia com M (Rooney Mara), passando a acompanhar, resignado e impotente, o seu luto.

O caráter experimental da obra fica claro logo de imediato, na imagem. Ao invés de usar o tradicional 16:9 dessa era digital, Lowery utiliza como razão de aspecto 1.33:1, que remete às primeiras projeções quando os filmes apresentavam essas dimensões antes do som ser introduzido. Para Lowery é uma oportunidade de reverenciar os clássicos, mas também de testar sua criatividade. No fim, apesar de entender a sua decisão ao optar por essa escolha, sinto que fez pouca diferença no filme.

Foto: Reprodução

Contudo, é interessante como Lowery conduz esse filme porque a morte de C acontece mesmo de forma inesperada. Qualquer ser humano provavelmente passará por algo assim. Antes da tragédia acontecer M já sentia que a casa tinha sons estranhos e os dois planejavam até se mudar, mas preferiram ficar porque C sentia que ali era o seu lar. Isso explica, por exemplo, a sequência filmada por Lowery quando C acorda como um fantasma e se liga direto à sua memória recente e familiar e parte justamente para lá: a casa onde morava com M.

Mas o que descobrimos em A Ghost Story é que esse é um fenômeno recorrente. C se dá conta disso quando enxerga um outro fantasma como ele na casa do vizinho, enquanto se vê preso no tempo de acompanhar M passando pelas suas fases de luto. C tenta se comunicar a partir de sons, justamente os mesmos que assustam M a ponto dela se mudar. É aí que parte da fé de cada um sobre acreditar ou não nesse fenômeno. No filme francês Personal Shopper, por exemplo, a personagem de Kristen Stewart é uma especialista no assunto e usa isso como uma maneira de se comunicar pela última vez com o seu irmão gêmeo que faleceu. Em A Ghost Story M leva a sério e inclusive, antes de se mudar, deixa um bilhete na expectativa de talvez dar um conforto a si mesma, mas também em sinal de respeito sobre aquela entidade que ela acredita ser possível de estar habitando a casa.

Foto: Reprodução

O problema de A Ghost Story reside na atmosfera. Lowery filma longas sequências com uma câmera estática na qual cria uma expectativa no espectador de que algo acontecerá, quando na verdade serve apenas para representar o tédio de como a passagem de tempo pode ser para alguém que está vivendo como um fantasma. Além disso, algumas passagens de acompanharmos o cotidiano de novos inquilinos soam também desinteressantes e pouco adicionam à narrativa. E como fica nítido que estar preso nessa outra dimensão é irreversível, C vai se cansando e perdendo o controle, assustando mais e mais inquilinos dessa casa a ponto desta ser conhecida como mal-assombrada e levada à demolição justamente por assustar os moradores.

A Ghost Story entra nessa safra de novos filmes de terror que estrearam nesse ano. É uma tentativa louvável de recuperarem o gênero, perdido em meio a franquias como O Albergue e Jogos Mortais. Ainda que problemático e pouco inspirador, A Ghost Story agrada quando não tenta ser complexo demais. Assista o trailer:

A Ghost Story (A Ghost Story, 2017)
Direção: David Lowery
Roteiro: David Lowery
Elenco: Rooney Mara, Casey Affleck, Will Oldham e Rob Zabrecky
Duração: 87 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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