A série 'Le Bureal des Légendes' e a linha tênue entre o real e a farsa

Le Bureal des Légendes (ou The Bureal) é uma série francesa, com produção americana, que está começando a ganhar o mercado internacional e a chegar ao grande público apenas agora em 2016. Já com duas temporadas exibidas (e uma terceira em produção) o seriado foi disponibilizado recentemente no iTunes (clique aqui), que comprou os direitos exclusivos de todos os episódios.

Escrita por Eric Rochant (Quebra de Conduta), Le Bureal des Légendes acompanha Guillaume “Malotru” Debailly (Mathieu Kassovitz, do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), Munique (2005), diretor do premiado A Rebelião (2011) e escolhido Melhor Ator no importante Festival Séries Mania), um agente do Diretório Geral de Segurança Externa (DGSE, algo como a CIA ou o MI6) francês que retorna à Paris após seis anos atuando disfarçado na Síria como o professor Paul Lefebvre.

A principal atuação do DGSE é infiltrar seus agentes em diversas regiões do mundo dando a eles uma falsa identidade para que possam recrutar e identificar informantes no intuito de criar uma grande rede de colaborações com as operações secretas do diretório. Le Bureal des Légendes está menos para uma franquia como James Bond ou Jason Bourne, por exemplo, e mais para os livros escritos por John Le Carré (O Espião Que Sabia Demais e O Mais Procurado vieram rapidamente à cabeça) e até para a série americana Homeland. Ambos os programas levam em conta as ameaças terroristas e os conflitos do Oriente Médio como o fio condutor da narrativa, que no final acaba servindo também como um estudo de personagem (como acontece também com Carrie Mathison em Homeland).

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Imagem: Divulgação/Canal+

Nos EUA a série ganhou comparações com o modo americano de fazer televisão, que o próprio ator fez questão de desmentir nesta entrevista ao NY Times. Isso à parte (porque há similaridades mas também muitas diferenças), na primeira temporada a série se concentra no retorno de Debailly à França. Isso quer dizer que toda a vida que ele construiu como Paul Lefebvre por seis anos na Síria precisava ser deixada para trás. Por isso ele passa por testes e recebe uma vigilância especial porque é comum agentes que atuam por tanto tempo não conseguirem retomar a verdadeira identidade, misturando a vida-dupla e podendo colocar em risco diversas outras operações que o Diretório mantém em outros países.

Mas ao viver uma paixão na Síria com Nadia El-Mansour (Zineb Triki), Guillaume não consegue se desvencilhar tão facilmente do disfarce. E ao descobrir que ela está em Paris para um congresso, mesmo tão experiente e sendo o melhor agente do Diretório, Debailly retoma o disfarce contra todas as regras e políticas do DGSE. A partir disso, sua vida sai completamente do controle e ele passa a viver duas vidas enquanto busca uma tentativa de mantê-las que ele próprio sabe será impossível.

Crises e conflitos

Como se não bastasse a tentativa de reatar o romance com Nadia El-Mansour, ao voltar da Síria Guillaume se torna o diretor do DGSE e passa a treinar Marina Louseau (Sara Giraudeau), novata que recebe a missão de ir para o Irã, se infiltrar, construir uma rede de contatos e reunir informações sobre a atividade nuclear daquele país. Ao mesmo tempo, a França passa por uma grave crise de confiança – uma discussão que alardeou o país nos últimos meses com os ataques terroristas na sede do jornal satírico Charlie Hebdo, na casa de shows Bataclan (e em outros restaurantes nos arredores de Paris), no Stade de France e em Nice, no Dia da Bastilha (o feriado mais importante da França).

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Imagem: Divulgação/Canal+

A captura de um agente da DGSE que atuava na Argélia de certa forma agrava essa crise, aumentando a tensão dentro do próprio Diretório que começa a buscar respostas sobre o paradeiro do seu agente, estabelecendo uma forte tensão sobre as práticas do Diretório e se o nível de conhecimento das informações que eles possuem são realmente relevantes uma vez que eles próprios se acham sempre atrás dos seus aliados e, principalmente, dos seus inimigos (agravada também por uma crise no repasse de verbas ao DGSE).

Essa conjuntura política não poderia ficar de fora de uma série como Le Bureal des Légendes, que pega de maneira inteligente os fatos reais que estão ocorrendo no mundo (a instabilidade do Oriente Médio, a longa guerra civil na Síria, a participação dos EUA e da Rússia, o alcance do Estado Islâmico, entre outras crises geopolíticas que acompanhamos hoje) e joga dentro da trama, colocando os seus personagens para viverem situações que conseguimos visualizar como próximas do real.

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Imagem: Divulgação/Canal+

Le Bureal des Légendes faz isso com um ritmo lento – mesmo a trilha sonora mal conseguimos ouvir, em uma clara demonstração do quanto a série busca se ambientar de forma cuidadosa, se esgueirando entre um conflito aqui e ali. Por causa disso Le Bureal des Légendes demora para engrenar e atingir o clímax, mas compensa a lentidão ao construir cada passo dado por Debailly com muita tensão (a sequência de um encontro entre dois informantes é muito boa pela carga de tensão que obtém), além de vermos Debailly fora da sua posição de conforto, cada vez mais fragilizado e exposto por uma situação que ele próprio criou.

Premiada com o prêmio do Syndicat Français de la Critique de Cinéma no início desse ano, um dos mais prestigiados na França, Le Bureal des Légendes é uma série de espionagem sofisticada cuja ação não é ver os agentes portando armas e atirando pelos cartões postais de Paris em sequências frenéticas de ação (seguindo uma estética contrária ao gênero que a série pertence). Pelo contrário, Le Bureal des Légendes acompanha esses personagens tentando compreender as rápidas mudanças do mundo ao redor deles. E se distrair pode significar um erro que custe muito caro.

Assista o trailer da 1ª temporada:

[Crédito da Imagem: Divulgação/Canal+]

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