Quando mal nos recuperamos de The Handmaid’s Tale, estreou há pouco tempo mais uma série baseada em um livro da autora canadense Margaret Atwood. A minissérie de seis episódios, Alias Grace (disponível na Netflix Brasil), é a terceira produção a estrear nesse ano baseada em algum livro da escritora. Além das duas já citadas, a animação infantil Wandering Wenda também foi exibida no Canadá em 2017.

É muita coincidência que essas três obras de Atwood tenham estreado quase que simultaneamente – o que é bom, diga-se de passagem. Porque estão servindo para discutirmos, seja no mundo distópico de The Handmaid’s Tale (um exemplo do que podemos nos tornar) ou para nos relembrar de como éramos, no caso de Alias Grace. Temas que hoje ganharam um importante e merecido espaço para serem debatidos quando se referem à opressão dos homens em relação às mulheres, assédio, imigração e aborto.

Em Alias Grace, roteirizada e produzida por Sarah Polley (diretora dos ótimos e premiados Longe Dela e Histórias que Contamos), a trama acompanha o caso real de Grace Marks (Sarah Gadon), imigrante irlandesa que parte para o Canadá de 1840 para tentar uma vida melhor com a sua família. A figura paterna aqui é inexistente, então Grace quando perde a mãe se vê tendo que cuidar dos seus irmãos e depois obrigada desde cedo a trabalhar a mando do próprio pai, para sustentá-lo. No Canadá, porém, Grace é acusada e condenada à prisão perpétua pelo assassinato do patrão Thomas Kinnear (Paul Gross), e sua governanta e amante Nancy Montgomery (Anna Paquin). Junto com ela, o funcionário James McDermott (Kerr Logan) também é sentenciado à morte pelo mesmo crime.

Foto: Divulgação/Netflix Brasil

O roteiro de Polley torna-se fascinante e provocativo a partir das interações de Grace com o Dr. Jordan (Edward Holcroft), chamado por um comitê que pretende perdoar o crime de Grace após anos vivendo em uma presidiária feminina. Polley adota um tom de sarcasmo e ironia que nos confunde em acreditar se o crime de fato aconteceu da forma como Grace conta ou se ocorreu como está no depoimento de McDermott. Essa contradição é criada também graças à ótima atuação de Sarah Gadon, sendo uma experiência à parte observar seus truques de postura e narração enquanto aparentemente engana o Dr. Jordan.

Mas sabendo todo o histórico de Grace de abusos, assédios e maus-tratos que ela precisou enfrentar numa sociedade tão patriarcal, Alias Grace nos transforma não só em condescendentes mas, principalmente, em cúmplices de Grace. Como a maior parte das mulheres, Grace desenvolveu formas de autodefesa e manipulação sem deixar os homens perceberem o significado das ações dela. Além de esnobar também a incapacidade dos homens de entendimento, sendo constantemente protegidos e nunca culpados pelo que fazem (suas observações sobre algumas perguntas infantis e óbvias feitas pelo Dr. Jordan são impagáveis) – o que deu a eles o livre-arbítrio de fazerem o que bem quiserem, ao contrário das mulheres.

Foto: Divulgação/Netflix Brasil

Apesar da sociedade ter tido avanços, ainda hoje as mulheres precisam desenvolver rapidamente esses mecanismos de defesa. Enquanto isso, os homens se sentem tão ameaçados por elas quanto naquela época – basta observar no trânsito quando há uma mulher dirigindo uma moto e um carro guiado por um homem vindo atrás, como ele tenta intimidá-la acelerando e se aproximando mais do que deveria. O que se enxerga nesse espaço das grandes avenidas reflete um pouco do que Alias Grace traz à sua narrativa, estabelecendo eficientemente na minissérie um diálogo com o moderno sabendo que ainda há muito o que avançar. Aqui no Brasil, por exemplo, uma comissão do Congresso aprovou o texto-base de um projeto que proíbe o aborto mesmo em caso de estupro.

São tempos que nos exigem ficarmos vigilantes. Por isso que as obras de Margaret Atwood, agora alcançando um público cada vez maior, é tão importante para nos relembrar da linha tênue que separa a sociedade que vivemos das vistas tanto em Alias Grace quanto em The Handmaid’s Tale. Assista o trailer:

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/Netflix Brasil]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *