Séries

“American Crime Story” recria o circo do julgamento de O.J Simpson

O julgamento de O.J Simpson, estrela do seu tempo na liga de futebol americano (NFL), foi transmitido pela televisão, em tempo real, entre setembro de 1994 e outubro de 1995. Pouco mais de cem milhões de pessoas paravam na frente da TV todos os dias para assistir o que acontecia diretamente do tribunal onde Simpson era julgado por duplo-homicídio (da sua esposa, Nicole Simpson, e do jovem Ronald Goldman). É quase uma audiência de Super Bowl, por sinal.

A série American Crime Story: The People vs O.J Simpson tenta recontar essa história e todo o circo que foi armado. O foco está em desenvolver a trama sob a ótica dos advogados Robert Shapiro (John Travolta), Robert Kardashian (David Schwimmer) e Johnnie Cochran (Courtney B. Vance). Quem interpreta O.J Simpson é Cuba Gooding Jr. E já falaremos mais a frente sobre esse elenco.

O que se deve levar em consideração nesse momento é tratar de separar as coisas. Não há como comparar American Crime Story com Making a Murderer, como se tentou fazer nas últimas semanas. O único ponto em comum entre as duas é o fato de se tratar de um julgamento de homicídio. Making a Murderer tem um compromisso com a realidade, por se tratar de uma série documental, que American Crime Story não tem, apesar da série ser baseada no livro “The People v. O.J Simpson”, de Jeffrey Tobin, elogiado pela riqueza de detalhes e pela narrativa sobre o julgamento.

Mas é aqui que a gente começa a falar sobre o elenco para justificar as incongruências entre os dois shows. John Travolta empresta um cinismo à Robert Shapiro sendo capaz de se notar logo na primeira cena em que ele aparece, sentado numa mesma com pano verde e rodeado por mulheres se vangloriando por alguma história. Ele gostava de estar nos holofotes tanto quanto Johnnie Cochran, interpretado por Courtney B. Vance, que parece ter sido um dos únicos que conseguiu captar o verdadeiro tom da série e está excelente.

Courtney B. Vance interpreta o advogado Johnnie Cochran | Foto: Divulgação/FX
Courtney B. Vance interpreta o advogado Johnnie Cochran | Foto: Divulgação/FX

Uma pena que Cuba Gooding Jr não tenha conseguido captar o mesmo tom, visto que ele surge sempre gritando e se apresentando como um grande lunático em cada sequência. É o mesmo que ocorre com a atriz Sarah Paulson, que interpreta a promotora de Justiça Marcia Clark, cuja vida caótica é transportada também para a forma como ela convive com as pessoas e com o seu trabalho. Só que os excessos tanto dela quanto de Cuba Gooding Jr. mais atrapalham o ritmo da série do que precisamente seja digno de elogiar.

O espetáculo recriado por American Crime Story não é uma exclusividade apenas do julgamento, mas também das lambanças que a polícia de Los Angeles se envolve. E eles já não tinham muita credibilidade pois no ano anterior os negros foram às ruas em todas as cidades dos Estados Unidos para protestar contra a violência dos policiais – eles tinham também matado um jovem negro e foram absolvidos no caso, o que causou ainda mais revolta.

O recente filme Straight Outta Compton traz esse retrato à tona e em como isso motivou o nascimento de grupos de rap, algo muito similar ao que Beyoncé está fazendo com a sua nova música de trabalho “Formation”, que foi tocada no intervalo do Super Bowl e fez com que a cantora recebesse críticas por parte da polícia e também de uma minoria que resolveu boicotá-la.

Claro, em parte o julgamento de O.J Simpson tem a ver com racismo – a cena em que o policial logo o algema antes mesmo de acusá-lo ou de ler os seus direitos é um bom exemplo da maneira como ele foi tratado. Mas a série também não tem interesse em juntar provas para inocentá-lo ou para mostrar que o julgamento foi conduzido de forma incorreta – algo que Making a Murderer construiu de forma impressionante. American Crime Story se concentra no espetáculo do julgamento, no circo criado por seus advogados e na quebra de privacidade das pessoas que, possivelmente, nunca mais foi a mesma depois desse julgamento.

Assista o trailer:

Crédito da Imagem: Reprodução/FX

Um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *