Cercado por muito mistério e expectativa, o tão aguardado trailer de Silence, novo filme dirigido por Martin Scorsese, foi finalmente divulgado. Baseado no livro escrito pelo autor japonês Shusaku Endo (lançado em 1966), Silence conta a história de dois padres jesuítas portugueses, interpretados por Adam Driver (Patterson) e Andrew Garfield (O Espetacular Homem-Aranha), que devem lidar com várias formas de perseguição (incluindo a tortura) enquanto viajam pelo Japão para profetizar os habitantes locais e procurar seu mentor (interpretado por Liam Neeson) que está desaparecido.

Assista o trailer abaixo:

Desde que foi anunciado por Martin Scorsese como sendo seu próximo trabalho, Silence foi rodeado por uma aura de mistério que imediatamente causou muita ansiedade dentro da indústria cinematográfica e entre aqueles que a acompanham. Isso porque esse é um projeto que Scorsese vem tentando filmar há 28 anos. O diretor leu o livro de Endo em 1989 quando estava viajando pelo Japão. Ao retornar para os Estados Unidos, logo comprou os direitos de adaptação da obra para os cinemas e vem segurando o projeto desde então.

Martin Scorsese nunca escondeu a sua vontade de filmar este longa-metragem, mesmo quando ele esteve tão ocupado assumindo a direção de filmes como Os Infiltrados (2006, que lhe rendeu seu primeiro Oscar de Melhor Direção), A Invenção de Hugo Cabret (2011), Ilha do Medo (2010), Gangues de Nova York (2002) ou O Aviador (2004). Foi somente após o lançamento de O Lobo de Wall Street (2014) que o diretor resolveu dar uma pausa para se concentrar no filme que ele tanto desejava fazer.

Assim, qualquer antecipação sobre a trama ou mesmo a natureza da história foi impossível de fazer até poucos dias, quando finalmente as primeiras informações sobre o filme começaram a ser divulgadas. Já previsto para estrear em limitadas sessões no próximo dia 23 de dezembro (o filme só estreia mesmo em janeiro), Silence está no radar das premiações de 2017. Mas ao contrário do que muitos filmes fazem nessa época do ano, nada de exibição para a imprensa ou envio de material.

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Martin Scorsese dá instruções para Andrew Garfield no set de Silence. | Foto: Divulgação/Paramount

A dúvida e a fé

Com quase três horas de duração, Scorsese vai primeiro mostrar o filme para 400 padres jesuítas em Roma – um entre eles atuou inclusive como consultor no projeto. O Papa Francisco deve inclusive estar nesta mesma sessão.

A verdade é que esse projeto de Martin Scorsese não tornou-se sua obsessão por acaso. O tema central envolvendo religiosidade e fé o seduziu logo na primeira leitura da obra do autor japonês, quando ele estava viajando para o Japão para interpretar um papel de Vincent Van Gogh no filme dirigido pelo mestre Akira Kurosawa, mas também estava no país para terminar as filmagens de A Últuma Tentação de Cristo (1988).

O filme foi criticado por cristãos conservadores por conta de uma sequência de sonhos em que Jesus Cristo tem relações sexuais com Maria Madalena. No filme, Martin Scorsese deixa claro a sua visão de conflitos entre a dúvida e a fé. Um tema recorrente em sua filmografia desde o seu primeiro filme, Caminhos Perigosos (1973), que abre com uma narração do personagem vivido pelo ator Harvey Keitel que diz: “você não paga seus pecados na igreja. Você os paga nas ruas. Em casa. O resto é besteira, e você sabe”.

Quando a imagem corta para o quarto do personagem principal, um dos primeiros elementos que vemos é um crucifixo pendurado em uma das paredes. E acompanhamos seu personagem se confessando várias e várias vezes, como se estivesse à procura de redenção ao mesmo tempo que não acreditava nela, mas ainda assim o fazia para deixar a mente tranquila e viver em paz consigo mesmo.

Esse foi o destaque que um longo perfil feito pelo jornal NY Times deu ao cineasta (veja aqui), revelando Martin Scorsese como um “artista de intensas preocupações católicas”. Nesta entrevista, o diretor diz não saber se a sua obssesão em filmar Silence era algum tipo de busca por redenção. “Mas é uma coisa como se fosse para fazer certo. Não é uma prática consciente. É algo que se desenvolve dentro de você, talvez a partir de muitos erros”, disse.

Ainda garoto e crescendo no bairro de Little Italy, em Nova York, Martin Scorsese por pouco não foi missionário – apesar dos seus pais não serem católicos e muitos menos acreditarem nos conceitos pregados pela igreja (ou qualquer outra religião). O diretor diz que essa foi uma maneira encontrada por ele para viver num bairro tão complicado.

Foi nesse ambiente que o aterrorizava que Scorsese conheceu o Padre Principe, um jovem sacerdote que pregava nos arredores de Liittle Italy. Desde então, Padre Principe tem sido um conselheiro até os dias de hoje para Scorsese, cujos conceitos e ideologias ensinados por ele permearam toda a sua filmografia – alcançando o ponto máximo agora em Silence, um filme que tem a ver com toda essa sua religiosidade e vida espiritual.

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Liam Neeson interpreta um missionário desaparecido. | Foto: Divulgação/Paramount

Total entrega

Se Martin Scorsese se entregou completamente nos últimos dois anos ao projeto, o mesmo pode ser dito dos atores. Andrew Garfield, por exemplo, passou por todo o processo chamado de “direção espiritual” para interpretar seu personagem, o Padre Rodrigues.

Para fazer parte do projeto, Garfield se encontrou com Martin para essa direção espiritual e eles trocaram reflexões tanto por e-mail quanto por Skype. Logo em seguida, antes do início das filmagens, o ator partiu para a região de St. Bueno, uma casa jesuíta que fica no País de Gales, para realizar um retiro silencioso de sete dias.

Ao partir para as filmagens em Taiwan, Scorsese presenteou Andrew Garfield com uma cruz que o diretor havia recebido como um presente ainda quando era um noviço jesuíta.

Para interpretar Francisco Garrupe (o companheiro de viagem do Padre Rodrigues), Adam Driver perdeu aproximadamente 52 quilos para o papel durante quatro meses e meio, sendo supervisionado por um nutricionista. “Este filme é a história de uma crise de fé”, disse Driver na mesma entrevista ao NY Times. “Pode ser fé em seu trabalho, no projeto ou em um casamento. É sobre controle, e como ator você quer ter controle. Mas também é sobre sofrimento”, explicou.

Garfield e Driver se encontraram no País de Gales antes do início das filmagens. Os dois relatam que quando se viram no refeitório ambos se cumprimentaram com um aceno antes de partirem para Taiwan e filmar Silence. E em pouco tempo teremos a oportunidade de ver toda essa entrega na grande tela.

[Crédito da Imagem: Divulgação/Paramount]

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