Cinema

‘Assassinato no Expresso Oriente’ é uma adaptação sem brilho e fascínio

Uma das causas que mais nos fazem admirar as obras de Agatha Christie residem na sua escrita, é claro, mas principalmente na fascinante construção de seu detetive mais célebre e reconhecido: Hercule Poirot. Já se sabia da sua fama e inteligência antes mesmo de conhecer qualquer história da autora. Quando me foi apresentado os livros de Agatha Christie, falavam simplesmente “você tem que ler esse livro, é com o Hercule Poirot”. E isso era o suficiente.

E isso é o que nos leva a assistir a adaptação de Assassinato no Expresso Oriente, lançada agora 43 anos após àquela dirigida por Sidney Lumet, que acompanha o detetive Hercule Poirot (Kenneth Branagh) em uma viagem a bordo do Expresso Oriente e forçado a deixar as férias de lado para investigar a morte de Edward Ratchett (Johnny Depp). As suspeitas recaem sobre os doze passageiros que estavam no mesmo vagão de Ratchett. É aí que os problemas de Assassinato no Expresso Oriente ganham forma.

Dirigido pelo próprio Kenneth Branagh (já visto nesse ano em Dunkirk), a partir de roteiro escrito por Michael Green (Logan), Assassinato no Expresso Oriente em nenhum momento recria qualquer tensão causada pela morte de Ratchett. Um dos elementos mais interessantes que o cineasta Sidney Lumet desenvolve no filme de 1974 é a claustrofobia de uma investigação que se desenrola no ambiente fechado do trem, se agravando ainda mais quando a viagem é interrompida por uma avalanche. A partir daí, Branagh adota sequências externas e joga fora o que de melhor Agatha Christie faz ao construir sua narrativa em torno dessa claustrofobia, ameaçadora tanto pelos trilhos estarem interditados quanto pela desconstrução liderada por Poirot para desmascarar a ideia de crime perfeito.

Foto: Reprodução

Mas o que também fica claro no filme é a falta de competência de Branagh em lidar com um elenco tão recheado de estrelas. Judi Dench, Penélope Cruz, Daisy Ridley e companhia limitada tem atuações tão apagadas quanto o próprio filme. Mesmo no meu caso, já conhecendo a história e o seu desfecho, esperava que Assassinato no Expresso Oriente cuidasse melhor da trama para ao menos manter o espectador curioso e interessado sobre o que está assistindo, falhando também em não conseguir dar conta da trama principal que envolve o mistério e a solução do crime.

Perdendo tempo no início do filme quando se preocupa em apresentar Poirot resolvendo um crime, uma apresentação dispensável e que poderia ser cortada, como ator Branagh se esforça para dar profundidade à Poirot e suas peculiaridades. Como diretor, ele aposta em travellings no início do filme enquadrando os personagens de fora do trem para apenas no final, quando Poirot resolve o mistério e se dá conta de que a justiça é algo muito mais complexa do que ele poderia imaginar, é que a câmera o acompanha de dentro do trem – em finalmente um bom momento do filme. Branagh ainda abusa de tomadas filmadas de cima ao mostrar o desenrolar da investigação, estratégia que se revela repetitiva e pouco inspiradora – ao contrário do bom resultado alcançado por ele em Frankenstein de Mary Shelley (1994).

A verdade é que nada de fato funciona em Assassinato no Expresso Oriente. Nos faz relembrar com ainda mais saudosismo da adaptação original lançada nos anos 70. Assista o trailer:

Assassinato no Expresso Oriente (Murder on the Oriente Express, 2017)
Direção: Kenneth Branagh
Roteiro: Michael Green
Elenco: Kenneth Branagh, Penélope Cruz, Willem Defoe, Daisy Ridley, Judi Dench, Johnny Depp, Josh Gad, Michelle Pfeiffer e Olivia Colman.
Duração: 125 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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