'Até o Último Homem' marca retorno de Mel Gibson ao cinema após dez anos

Indicado a seis Oscars, incluindo Melhor Filme, Até o Último Homem marca o retorno de Mel Gibson à indústria após um longo período afastado desde que foi acusado de anti-semitismo. E ele não poderia ter escolhido história melhor para esse retorno, ao contar a trajetória de um homem que conquista a redenção, a admiração e inspira outros soldados em meio à Batalha de Okinawa na Segunda Guerra Mundial.

A história baseada em fatos reais é sobre o soldado Desmond Ross (Andrew Garfield, indicado como Melhor Ator e realmente em inspirada performance), considerado o primeiro “objetor” (“alguém que recusa o serviço militar para se considerar um pacifista”) da história. Condecorado com o mais alto grau de homenagem pelo governo americano após ter conseguido salvar 75 soldados durante a Batalha de Okinawa, Desmond Ross recusou pegar em armas e matar seus inimigos para seguir a sua convicção e Fé em salvar pessoas.

O filme de Mel Gibson sobrepõe o horror da guerra pela trajetória pacificadora de Ross. Mesmo tendo que superar o bullying sofrido quando iniciou o treinamento, praticado pelo Sgt. Howell (Vince Vaughn) e o Cap. Glover (Sam Worthington), e a própria infância conturbada com um pai (Hugo Weaving) que constantemente batia em sua mãe (Rachel Griffiths), Ross seguiu com aquilo que pensava ainda que ele fosse obrigado a passar algum tempo na prisão devido à sua recusa. A violência doméstica que ele testemunhava em casa era justamente o que ele mais queria combater, não através da vingança mas sim pela paz. E acabou levando isso para a guerra, superando inclusive um evento traumático com o seu irmão, quando quase o matou acidentalmente.

A primeira metade de Até o Último Homem serve para retratar esses traumas e também a sua busca em convencer o Exército de que ele é um soldado confiável mesmo sem uma arma em mãos. Mas a essa altura o filme cujo roteiro foi escrito por Robert Schenkkah (Até o Fim) e Andrew Knight (Promessas de Guerra) mais comete deslizes, ao tentar reproduzir sequências do clássico Nascido para Matar (1987), de Stanley Kubrick, enquanto até Vince Vaughn tenta encarnar a persona de R. Lee Ermey como o Sargento que treina a sua tropa de forma fanática e sádica.

Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, 2016) | Foto: Divulgação/Summit

Nada disso funciona bem e Até o Último Homem se arrasta. Mas o filme melhora quando parte para o conflito em si, quando o diretor Mel Gibson pode ser visceral e relembrando aquelas sequências violentas filmadas em Coração Valente (1995) e Apocalypto (2006). Na primeira investida ao monte Hacksaw, Gibson acertadamente adota uma sequência livre de trilha sonora, mais crua e deixando o sangue e a terra constantemente sujar a tela para que nos dê a real crueldade daquela batalha – tornando-se um filme de guerra e ressaltando os feitos do seu herói.

Enquanto tudo isso acontece, Desmond Ross está lá determinado em salvar vidas. Talvez se não fosse pelos depoimentos que vemos ao término do filme de soldados que vivenciaram aquele momento, seria muito difícil de acreditar. Pensaríamos apenas que Hollywood estaria “floreando” a história com seus efeitos e toda a competência do design de produção. Mas por mais que realmente essa qualidade técnica apareça, Até o Último Homem é sobre a história verdadeira e inspiradora de um homem.

Mesmo que já tenhamos visto muitos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, a maioria deles retratando o patriotismo dos Estados Unidos e saudando seus heróis (algo que Até o Último Homem faz e não tem porquê sentir vergonha), esse filme de Mel Gibson oferece uma visão a mais do conflito de uma história que merece ser contada e vista.

Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, 2016)
Direção: Mel Gibson
Roteiro: Robert Schenkkah e Andrew Knight
Elenco: Andrew Garfield, Hugo Weaving, Rachel Griffiths, Vince Vaughn, Sam Worthington e Teresa Palmer.
Duração: 139 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/Summit]

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