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Ava DuVernay é a mentora do começo de uma enorme revolução na TV

Desde que a cineasta Ava DuVernay atingiu grande sucesso ao dirigir Selma (2014), seu terceiro filme, ela vem usando a sua fama para mudar a indústria do entretenimento. A primeira diretora negra a filmar uma produção de US$ 100 milhões de dólares está com alguns projetos importantes para serem lançados, caso por exemplo do documentário The 13th que estreia neste ano na Netflix. Mas é em Queen Sugar, nova série televisiva do canal OWN (criada por Oprah Winfrey), que ela pretende deixar um legado permanente que promete causar uma revolução.

Queen Sugar estreou no dia 6 de setembro e já foi até renovada para a 2ª temporada. A série acompanha uma mulher que se muda com sua filha para o interior da Louisiana com o intuito de tomar conta da plantação de cana-de-açúcar que herdou do pai. Ava DuVernay dirige os dois primeiros capítulos de um total de treze episódios. O elenco da série é predominantemente formado por atores e atrizes negras e todos os episódios foram dirigidos por mulheres. Em uma declaração recente, Ava disse que “se Game of Thrones pode ter só homens, nós podemos ter só mulheres”.

Essa decisão estabelece desde já a série como um modelo para uma indústria que enfrenta muitas dificuldades quando o tema é diversidade, e isso pode ser o começo de uma enorme revolução que a televisão terá que passar em algum momento. As sete diretoras que Ava DuVernay contratou para dirigir os episódios nunca fizeram qualquer trabalho na TV antes. A exceção é Neema Barnette, que foi a primeira mulher negra a dirigir o capítulo de uma sitcom.

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Pesquisa aponta desequilíbrio entre mulheres e homens que atuam nos bastidores da TV. | Foto: Reprodução

Possivelmente, se não fosse por Queen Sugar e Ava DuVernay, essas mulheres não teriam nenhuma chance de dirigir qualquer episódio na televisão. Um estudo recente publicado pelo Center for the Study of Women in Television and Film (veja o gráfico ao lado) mostra que apenas 27% das mulheres conseguem trabalhos como roteiristas, produtoras, diretoras ou editoras.

Esse estudo leva em conta tanto as produções para o cinema quanto para a TV. Mas se pensarmos apenas na televisão, o número é ainda menor. De acordo com um estudo (veja abaixo) feito pelo Director’s Guild of America (DGA), hoje apenas 17% dos episódios de todas as séries exibidas na TV são dirigidos por mulheres.

Em entrevista ao The Late Show com Stephen Colbert, DuVernay afirmou que ouve quase sempre que as mulheres não têm oportunidades de dirigir porque não tem experiência. Um argumento que, convenhamos, não convence ninguém. Mas aí Ava pensou “bom, se a desculpa é essa, então eu vou abrir o espaço para essas mulheres dirigirem, ganharem espaço e fazerem essa transição da faculdade para o ambiente da indústria”.

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Queen Sugar é exibda pelo OWN Network, criado por Oprah Winfrey, que também é produtora da série. | Foto: Divulgação/OWN Network

Transição para a TV

Se Ava DuVernay estivesse trilhando o caminho inverso do cinema para a TV há duas décadas atrás, provavelmente teria crítico dizendo que a carreira dela não tinha sido bem-sucedida. Mas isso não se aplica no momento atual, quando vivemos a chamada “golden age” da TV. Foi isso que a motivou transformar Queen Sugar em uma série do que apenas em um filme independente.

“Se você é uma storyteller e está tentando contar as melhores histórias, eu realmente acredito que a TV é o melhor meio nesse momento. ‘Por que não ir para a TV?’ é mais a questão agora ”, disse ela em entrevista ao NPR.

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Estudo DO DGA mostra desigualdade na direção dos episódios para a TV. | Foto: Reprodução/DGA

Entretanto, Ava DuVernay teve uma grande influência para também trilhar esse percurso: Shonda Rhimes. Em 2013, quando trabalhava na adaptação de Selma e havia acabado de se tornar a primeira mulher negra a vencer o prêmio de direção no Festival de Sundance (pelo filme Middle of Nowhere), Ava foi responsável por um episódio da série Scandal e ali começou a pensar mais livremente em participar de algum projeto na TV.

“É muito difícil para qualquer mulher dirigir. Ponto. Seja TV ou filme. Foi realmente um presente quando Shonda me convidou para fazer um episódio da sua série. Eu não precisei marcar reunião, absolutamente. Ela me ligou e me perguntou se eu estava interessada em dirigir um episódio para a televisão. Como sou interessada em todo tipo de storytelling, eu aceitei”, conta.

Mas durante processo, Ava DuVernay também explica que isso lhe ajudou a aprender que muitas outras mulheres precisavam bater de porta em porta pedindo para participar de um projeto e sendo rejeitadas, ao contrário dela, que não precisou passar por isso naquele momento.

“Foi pensando nisso que eu fiz o que Shonda fez comigo. Eu quero abrir portas ainda maiores para as mulheres terem mais oportunidades, por isso convidei todas essas lindas e lúcidas diretoras para dirigirem comigo. E o resultado é bastante profundo na série”, disse.

O próximo trabalho de Ava DuVernay é no cinema. Ela vai dirigir a adaptação de A Wrinkle in Time, produção da Disney que deverá ser lançada em 2017.

Assista o trailer de Queen Sugar:

[Crédito da Imagem: Reprodução]

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