Bacurau é um filme de resistência lançado no momento certo

A dupla de diretores e roteiristas de Bacurau, Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (que estreia em direção mas trabalhou com Kléber Mendonça Filho em todos os seus filmes assinando o design de produção dos seus longas e curtas metragens), têm dito nas entrevistas de divulgação do filme que “a realidade brasileira é que acabou convergindo na direção da ficção do filme”. Tendo o projeto iniciado formalmente há dez anos e filmado no início de 2018, o retrato violento e opressor do Brasil distópico retratado no filme guarda muitas coincidências com a própria realidade que vivemos hoje. Quando saiu com o prêmio do júri em Cannes (dividido com o longa francês Les Misérables), o Brasil vivia um forte debate político e protestos contra os cortes de orçamento no ministério da Educação e também à sombra da possibilidade de fim da Agência Nacional de Cinema (Ancine) ou censura de projetos fomentados pelo governo.

Bacurau é um filme que contempla todas as ansiedades provocadas por uma má gestão de governo. Não à toa a médica de Bacurau, Domingas (Sônia Braga), distribui pílulas para conter a ansiedade da população que vive nesta comunidade, cuja aparência de tranquilidade é impactada ainda nos primeiros momentos, quando acompanhamos o retorno de Teresa (Bábara Colen) à cidade enquanto são encontrados caixões pelo caminho. Soma-se a isso eventos estranhos, como quando se descobre o desaparecimento de Bacurau no aplicativo de mapas ou do sinal de celular que não funciona mais. Indicativos que os moradores da pacata cidade percebem como uma forma de serem vigiados ou alvos de um ataque, e logo se unem para resistir contra um grupo armado estrangeiro e um político corrupto que resiste em consertar o problema da água em troca de votos.

União e resistência

Esse movimento de união contagia quem assiste instantaneamente, principalmente levando em consideração à dualidade que divide o país atualmente. Assisti ao filme em uma sessão de pré-estreia e a sala estava cheia em Salvador. Não fiquei tão surpreso, pois sabia do hype que Bacurau havia conquistado desde a consagração em Cannes. Mas me deixou feliz que o público tenha escolhido ver o filme na mesma semana que estreava Era Uma Vez Em… Hollywood, de Quentin Tarantino. Os aplausos e a euforia coletiva tomaram conta do cinema a cada momento de Bacurau, um sentimento que parecia um levante contra a opressão e os ataques que as minorias, a cultura e a região Nordeste vêm sofrendo desde que o atual governo tomou posse.

Além de convencer com essa precisão da realidade sofrida por parte da sociedade brasileira, Bacurau também é eficiente como cinema e exercício de linguagem, pois busca referências conscientes no faroeste e no Cinema Novo, que ocorreu no Brasil na década de 60. Há momentos emblemáticos e poderosos, como o fato da população se armar com espingardas e revólveres que eram expostos no museu da cidade como símbolos da resistência do lugar; e também da trajetória de Lunga, personagem interpretado pelo ator Silvero Pereira (reconhecido pela atuação na novela A Força do Querer quando viveu uma travesti), que é perseguido pelas autoridades políticas e vive escondido em uma represa desativada. A sua explosão de ódio e vingança em determinada sequência do filme é um dos momentos mais vibrantes de Bacurau.

Vivemos em distopia à realidade

O filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles reforça o que sinto muitas vezes, como se tivesse vivendo em uma realidade paralela, em uma distopia como a retratada por Bacurau. É difícil compreender a atual conjuntura política, em que camadas da sociedade falam com nostalgia da ditadura que tanto matou e perseguiu pessoas há cinquenta anos, político aparece comemorando a morte de um sequestrador de ônibus, adolescentes entram armados em escolas e disparam contra inocentes e o presidente lutando para liberar as armas sendo apoiado por vários grupos. Por isso que Bacurau é uma obra imperativa que nos provoca para unirmos contra as barbaridades dessa realidade que de ficcional não tem nada.

Vinícius Silva
Sou formado em Jornalismo e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. O vício em Filmes, Séries e nas Artes em geral me levaram à escrita.

2 Comments

  1. Gostei muito do filme. Interessante como Bacurau conseguiu ser mais Tarantinesco que o último do próprio Tarantino.

    Um detalhe que acho que vale a menção. O correto é “uma” travesti.

    Parabéns pelo texto! Sigo acompanhando.

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