Um dos elementos mais interessantes da trilogia de Batman dirigida por Christopher Nolan era a sua narrativa. A trama não se tratava apenas de um super-herói lutando contra vilões. Era um jogo policial, no melhor estilo do gênero, onde a ação ocorria de forma simultânea entre diversas outras histórias que iam se colidindo e se transformando em uma importante ameaça para o nosso herói – e no meio disso, o próprio Batman procurava achar a sua própria identidade, como super-herói e como ser humano para, no final, descobrir que não importa quem seja o Batman (ele ou outra pessoa) porque o que realmente importava era o símbolo que ele representava.

Toda essa bonita construção, a qual Nolan demorou três filmes para conseguir estabelecer e nos fazer acreditar nela, é basicamente jogada fora para atender aos interesses da DC Comics em tentar alcançar a Marvel e o universo que o estúdio concorrente criou, com múltiplas histórias se intercalando e heróis atuando juntos na defesa pelo mundo. Batman vs Superman: A Origem da Justiça parte desse mesmo pressuposto, uma vez que a DC Comics está empenhada em levar aos cinemas, em 2017, a primeira parte do filme com a Liga da Justiça formada por Batman, Superman, Aquaman (que aparece em uma rápida sequência), Mulher-Maravilha, Flash e Ciborgue.

Escrito por Chris Terrio (vencedor do Oscar por Argo) e David S. Goyer, a história de Batman vs Superman: A Origem da Justiça começa logo em seguida à batalha final mostrada em Homem de Aço (2013). Bruce Wayne (Affleck, cuja voz aterrorizante sai de um microfone (por que?), não compromete mas também não se esforça muito) tenta salvar o que resta e evacuar as pessoas ao mesmo tempo que tudo está sendo destruído (como é de costume, parece até um filme-catástrofe de Roland Emmerich). A partir desse momento, ele passa a nutrir raiva e ódio por Superman (Cavill, inexpressivo como sempre).

Com ajuda de Alfred (Irons, em uma versão bem diferente daquela interpretada por Michael Caine), Wayne passa a estudar o seu adversário e não percebe que uma terceira força está começando a se desenvolver em meio a eles: Lex Luthor (Eisenberg, tentando imitar o Coringa de Heath Ledger e soando tão excessivo quanto o tom de grandiosidade que Zack Snyder tenta imprimir à narrativa). Luthor e a sua empresa, LexCorp, armam situações para fazer com que a população e o governo, adoradores do Superman e que o enxergam como um verdadeiro Deus, possam culpá-lo por todas as tragédias e destruições que estão acontecendo. Por sinal, dezoito meses é um tempo muito curto para a cidade se recuperar daquela forma e ainda construir uma espécie de homenagem, como o Marco Zero que foi construído no lugar das antigas Torres Gêmeas do World Trade Center.

Apesar do design de produção de Patrick Tatopoulos mostrar alguns prédios tombados e com as fachadas abertas, ainda mostrando uma aparente reconstrução do local, essas cenas são isoladas quando Zack Snyder filma algumas sequências aéreas da cidade a mostrando inteiramente organizada e normal e desmente totalmente a ideia anterior. Não é questão de adotar uma verosimilhança rigorosa com a realidade. Afinal de contas, em se tratando de Batman vs Superman: A Origem da Justiça, essa é a menor das preocupações de quem vai ao cinema assistir. Mas seria bom que o enorme apreço técnico na filmagem que Synder tanto faz questão de mostrar fosse também colocado à prova para dar um aspecto maior de realidade (que, sim, falta ao filme e incomoda).

Já Chris Terrio e David S. Goyer em nenhum momento conseguem dar ritmo à história. Com tantas tramas sendo apresentadas, nada é totalmente desenvolvido. Um exemplo disso são os sonhos e as alucinações de Bruce Wayne. Em uma sequência, ele ouve uma voz dizendo que Lois Lane (Adams, que se esforça para dar a dose de humanidade que falta ao filme) é o elo, a chave. Mas no final isso não quer dizer absolutamente nada para o herói e muito menos para nós. Uma informação que serve apenas para Lex Luthor (sequer fica claro como ele decifrou tão rapidamente a identidade de Superman), o atraindo através de Lois para jogar o seu jogo de lutar contra Batman até que apenas um dos dois sobreviva.

Mas já que o título do filme é “Batman contra Superman”, a sequência da batalha entre os dois é arrastada, sem nenhum grande impacto, sem nenhuma emoção (esse é um outro problema do filme). Nesse ponto, a história parecia que já tinha umas três horas de duração e mal se sabia que ainda deveria estar faltando mais uma hora para terminar quando Snyder, resolvendo o “conflito” entre Batman e Superman, nos apresenta Apocalypse (aqui concebido a partir dos experimentos de Luthor a partir do corpo do General Zod, e não forjado no planeta Krypton como é contada em A Morte de Superman, de 1993).

Se a gente já não tinha visto brigas, explosões e uma trilha sonora altamente barulhenta o suficiente durante todo o filme, Batman vs Superman assim ainda reserva mais alguns minutos para mostrar essa última batalha. E é bom que se diga que ela apenas ganha fôlego quando a Mulher-Maravilha (Gadot) resolve se juntar à dupla (a esse ponto eles já se tornaram melhores amigos e estão lutando juntos). Gal Gadot rouba os holofotes dos dois heróis com a sua Mulher-Maravilha. Ela tem pouquíssimo tempo de tela. Mas o cansaço de ver Batman e Superman, assim como as indecisões de uma história que apenas se arrasta até o final, faz com que ela se transforme em um surpreendente ponto positivo na história (assim como o Alfred de Jeremy Irons, que causa certa estranheza no início mas quando chega ao final estamos acostumados com uma versão que lembra Lucius Fox).

Batman vs Superman: A Origem da Justiça é um filme que se mostra desnecessário e sem sentido, servindo como um prólogo mal-feito para a aguardada (será?) Liga da Justiça. Apenas dá para dizer que a DC Comics estava cansada de ser deixada para trás pelo universo Marvel. E a pressa com que ela tenta alcançar o concorrente faz com que Batman vs Superman: A Origem da Justiça se transforme em um grandioso e passageiro entretenimento.

Crédito da Imagem: Divulgação/Warner Pictures

1 thought on “Batman vs Superman tenta dar um novo ritmo à DC Comics, mas não consegue

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