Cinema

Chris Rock abusou da ironia e por fim conseguiu trazer a inclusão ao Oscar

Todo mundo estava ansioso para saber como seria o monólogo de abertura do apresentador Chris Rock. Como ele iria expressar toda a polêmica envolvida com a falta de indicados negros? O que ele falaria? O que a Academia reservaria durante a cerimônia para falar sobre igualdade? Durante todo o discurso, ele tentou trazer a mensagem da oportunidade. Mas foi a ironia que norteou não apenas o seu monólogo, como também todos os segmentos que abraçaram justamente a causa da oportunidade para que mais negros possam ter representatividade no prêmio.

É bom que se diga o seguinte: Chris Rock não menosprezou o movimento #OscarSoWhite (saiba mais aqui). Ele foi irônico, sim, e muito inteligente. Usar da ironia para falar sobre um assunto que chamou tanta atenção da mídia foi um ato de coragem, as pessoas só entenderam o seu posicionamento com o desenvolver da premiação, e aí tiveram condições de rir de piadas tão “vida real”. Como um questionamento que o próprio Chris Rock trouxe para seu monólogo: por quê os protestos contra a falta de negros entre os indicados só começaram agora, na edição 88ª? É que os negros não protestaram nos anos 50 ou 60 porque tinham causas mais importantes para lutar, “quando sua avó está pendurada num pau de arara você não liga para quem está ganhando um Oscar”, ele disse.

No entanto, o discurso de Chris Rock pecou por não ser um pouco confuso, não se sabemos se foi por estar nervoso, mas a forma como dizia as piadas e criticava as manifestações, com pouco humor, em muitos momentos deixou a plateia desconfortável. Alguns aplaudiram e riram muito tempo depois da piada ser dita, em companhia aos poucos que aplaudiram e riram primeiro. Foi só no decorrer da premiação, que suas participações ilustraram seu posicionamento, que foi possível entender de como ele estava tentando guiar o evento pelo caminho da “oportunidade”. Se ele pecou ao não conseguir trabalhar melhor esse tema em seu monólogo, Chris Rock teve segmentos importantes que pontuaram a premiação sem deixá-la cansativa como nos anos anteriores. A ideia de repensar os indicados sob a ótica de atores negros foi engraçada e a passagem em que entrevista espectadores negros em um cinema de Compton também foi interessante.

Mas houve um momento em que o discurso de Chris Rock tornou-se controverso: ao criticar de forma aberta o posicionamento de Jada Pinkett Smith, esposa de Will Smith, uma das primeiras junto com Spike Lee a irem a público a favor do boicote à premiação. Nesse caso, Chris Rock deveria esquecer o assunto (o esquecimento seria tratado com respeito, com certeza). Bastava contar a sua própria experiência, como o fez em uma passagem quando ele afirmou que alguns amigos o pediram para desistir de apresentar a cerimônia. Afinal, cada um encara a falta de representação como pode, e se ele tinha a oportunidade de tratar com propriedade a temática sendo o apresentador do evento, outros agem da forma que os convém – não participando.

Já o discurso de Cheryl Boone Isaacs foi importante para reafirmar o compromisso da instituição – que, claro, não sabemos se irá ser seguido pela indústria cinematográfica. “Todo mundo em Hollywood tem responsabilidades nas mudanças. Precisamos agir. Inclusão nos fará mais fortes”, disse. A presidente da Academia falou sobre o alcance global dos filmes que Hollywood produz, mas que sofre pela falta de diversidade. Um estudo recente intitulado “Inclusão ou Invisibilidade” apontou que o homem branco continua sendo predominante na TV e no Cinema, enquanto que as minorias raciais e as mulheres estão jogadas às sombras. Uma questão que a Academia parece querer enfrentar. Mas a questão fica: será que terá força para seguir em frente? A gente espera que sim.

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