Cineasta José Padilha esclarece fracasso de RoboCop e fala de novos projetos

Dirigir uma superprodução, tendo milhões de dólares envolvido e ter que atender as exigências dos estúdios é uma tarefa que os diretores estrangeiros precisam enfrentar quando têm a oportunidade de filmar em Hollywood. Foi o que aconteceu com o cineasta brasileiro José Padilha. Praticamente dois anos após o lançamento de RoboCop, remake do clássico longa dirigido por Paul Verhoeven, ele finalmente falou sobre o que deu errado.

Em entrevista ao Screen Daily, Padilha disse que enfrentou uma “experiência estressante”. “Eu não tive a liberdade criativa que eu precisava. Passei 90% do tempo lutando”, conta ele. Padilha ainda disse ter recebido algumas ofertas para filmar outros filmes de ação e de super heróis após RoboCop, mas declinou todas.

“Todo o processo de RoboCop me fez pensar que fazer um filme em um estúdio de Hollywood não é o mesmo que fazer cinema. Eu vou pensar um milhão de vezes antes de me envolver em um projeto desse tamanho novamente. Meu erro foi pensar que eu poderia vir filmar em Hollywood e fazer o filme que eu queria, com o meu critério sobre cinema”, explica Padilha.

Nova série

A entrevista, no entanto, não foi apenas para falar sobre o que deu errado em RoboCop. Claro, o assunto surgiu porque se comentou muito sobre o fiasco do filme e os limites criativos colocados pelo estúdio naquela oportunidade. José Padilha comentou também sobre os seus outros projetos, sobre Narcos e o que ele pensa sobre a Operação Lava-Jato, ainda em curso no Brasil.

Mesmo longe do país (Padilha hoje mora em Los Angeles após sofrer uma tentativa de sequestro mal-sucedida quando a sua produtora esteve perto de invadida por bandidos (ou ‘policiais-bandidos?’) no Rio de Janeiro muito por causa dos filmes Tropa de Elite), o diretor brasileiro vai lançar em março de 2017 Jet Wash, série que terá os seis episódios dirigidos por ele e lançará um olhar sobre a corrupção e a operação Lava-Jato no Brasil.

“O fato de eu estar longe me ajudou a pensar melhor sobre o Brasil e a operação Lava-Jato, sem deixar que a ideologia local me afetasse”, disse Padilha ao se referir sobre as consequências da operação na política, que determinou a saída da presidente Dilma Rousseff (o julgamento do impeachment deve ocorrer no próximo mês).

José Padilha vive nos EUA após sofrer tentativa de sequestro no Rio de Janeiro | Foto: Divulgação

Segundo Padilha, a história sobre a Lava-Jato ainda não foi contada. “Quero lançar um olhar sobre as engrenagens da investigação e das tentativas de desestabilizá-la porque, enquanto a mídia brasileira passa mais tempo noticiando as reações da esquerda ou da direita, eu pretendo focar mesmo é na investigação. Não é um instrumento político, apesar de algumas pessoas interpretarem equivocadamente dessa forma”, conta.

Lançar esse olhar, como diz Padilha, está fazendo com que o diretor pesquise ainda mais sobre o assunto. Ele inclusive comprou os direitos de um livro sobre a investigação que foi escrito pelo jornalista Vladimir Netto.

“Por causa da natureza surrealista do escândalo, nós teremos que lembrar ao público que não se trata de uma história de ficção. Senão, os estrangeiros pensariam que a série é uma mímica de House of Cards”, disse Padilha.

Narcos

Ao mesmo tempo em que está totalmente imerso nesse novo projeto, o cineasta brasileiro também está envolvido na 2ª temporada de Narcos como um dos produtores-executivos. Neste novo ano, a história do traficante Pablo Escobar (Wagner Moura) terá dois lados: a consolidação de um império e a queda de Escobar resultante do crescimento do cartel de Cali e da perda de espaço do cartel de Medellín.

O trabalho de divulgação dessa temporada inclusive já começou, pois a Netflix divulgou as primeiras imagens (veja na galeira abaixo) do novo ano de Narcos, que estreia os dez episódios no serviço de streaming no dia 2 de setembro.

Outros projetos

Como a gente pode ver, o diretor brasileiro não para. E ele tem mais dois projetos nos quais ele está trabalhando. O primeiro deles é uma série, dessa vez para a emissora a cabo Showtime, que será dividida em dez episódios e contará a história do sistema prisional americano. Intitulada The Brand, José Padilha irá dirigir alguns episódios da trama que é focada no nascimento das gangues dentro das prisões dos EUA entre as décadas de 70’ e 80’.

“Eu gosto de investigar as origens dos problemas, explicar de onde eles vieram. Isso me ajuda a entender um pouco melhor o que está errado com o mundo”, disse o brasileiro.

O outro projeto é o longa-metragem Entebbe, que deverá estrear em dezembro desse ano. O filme foi escrito pelo roteirista Gregory Burke (responsável por ’71, que foi bem recebido pela crítica em 2014) e lidará com uma questão que assombra o mundo hoje: o terrorismo.

Com tantos projetos engatilhados, Padilha não tem interesse em voltar a dirigir para um grande estúdio. | Foto: Reprodução
Com tantos projetos engatilhados, Padilha não tem interesse em voltar a dirigir para um grande estúdio. | Foto: Reprodução

Entebbe terá no centro da sua trama o sequestro de um avião da Air France em 1976, que teve um desfecho no Aeroporto Entebbe (daí o título do filme), em Uganda. Apoiados pelo ditador Idi Amin Dada, os quatro sequestradores (dois palestinos e dois alemães) ordenaram que os militares palestinos presos em Israel deveriam ser soltos.

“Como alguns documentos foram revelados recentemente, o que eu pretendo fazer aqui é desconstruir a narrativa oficial”, disse Padilha.

Crédito da Imagem: Reprodução

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