Durante mais de uma semana fui relutante em escrever esse artigo, que publico agora com a mesma relutância que sofri quando comecei a escrevê-lo. Sim, porque o adjetivo “obra-prima” é algo muito contundente, forte. Só consigo juntar tal expressão na mesma sentença para filmes dos quais, vistos mais de algumas vezes, não há outra maneira de explicar do que apenas dizer se tratar de uma obra-prima. Mas apesar dessa relutância, também não consigo encontrar outra expressão que não esta para definir a 2ª temporada de Master of None, que estreou há duas semanas na Netflix e já pode ser considerada como a melhor do ano até o momento.

Comentei neste artigo que os primeiros cinco episódios deixavam claro as ambições dos criadores Aziz Ansari e Alan Yang quanto a essa nova temporada: a referência do primeiro capítulo à estética neorrealista do cinema italiano não só serviu para estabelecer o tom da narrativa da série naquele momento, como também serviu de fio condutor para um estudo do comportamento humano.

[ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS A PARTIR DAQUI]

E quem fez isso muito bem foi o mestre italiano Michelangelo Antonioni, em sua trilogia da Incomunicabilidade (A Aventura, de 1960, A Noite, de 1961, e O Eclipse, de 1962) que, apesar dele detestar esse título, trata do esforço de seus protagonistas para entrarem em contato com o outro – mas nem sempre bem-sucedidos nessa questão. Master of None encena a mesma situação, de forma sutil nos primeiros capítulos, mas mais objetivamente nos episódios quatro (“O Encontro”) e cinco (“O Jantar”).

Foto: Divulgação/Netflix

Em “O Encontro”, Dev testa o aplicativo de encontros que o seu amigo Arnold lhe apresenta ainda no início da 2ª temporada. Por quase meia-hora acompanhamos as fracassadas noites em que Dev tenta se conectar com qualquer uma daquelas mulheres que ele marca para se encontrar. No final, tanto Dev quanto o seu par demonstram estarem tão fatigados da companhia um do outro que só realça a dificuldade de estabelecer essa conexão, ou seja, de encontrar alguém que tenha os mesmos gostos (ou próximos) que os seus.

É possível estabelecer um paralelo com a obra de Antonioni a partir desse esgotamento e dessa solidão sentida por Dev que remete ao desaparecimento de Anna (Lea Massari), que se entedia do namorado em A Aventura (1960) e acaba desaparecendo misteriosamente durante uma viagem, abrindo caminho para um relacionamento entre ele e a sua melhor amiga, Claudia (Monica Vitti, então casada com Antonioni na época). Há um desespero entre os dois personagens desse filme em logo consumirem o que sentem ao mesmo tempo que sabem do erro que estão cometendo e, acima disso, precisam se concentrar nas buscas pelo paradeiro de Anna.

O desespero de Dev é semelhante, ainda mais quando ele está constantemente pensando em Francesca, sua amiga italiana e por quem ele se apaixonou durante seu estágio na Itália. Ao partir para Nova York com o namorado, Francesca e Dev se reencontram e Master of None dialoga de vez com a obra de Antonioni. Seja de forma clara quando os dois estão assistindo A Aventura, ou mais sutil quando apenas o fato deles não conseguirem dizer ou tomar uma atitude que exprima o que sentem são suficientes como expressão de uma inquietação que assistimos nos episódios “Amarsi Un Po” e “Buona Notte”.

Foto: Divulgação/Netflix

Além disso, os personagens secundários de Master of None também ganham papel importante nessa narrativa. Porém, nenhum deles é tão essencial quanto o de Denise, cuja experiência contada no ótimo episódio “Ação de Graças” (escrito por Aziz Ansari e Lena Waithe, a atriz que interpreta Denise, durante uma conversa informal que tiveram) talvez seja a história mais pessoal de todas da série e que faz Denise passar por uma jornada de aceitação quando se descobre gay e se abre à sua tradicional família, que demora para aceitar (especialmente a sua mãe, interpretada por Angela Basset, que merece uma indicação às premiações nesse ano), ao mesmo tempo que começa um relacionamento homossexual mostrado em uma passagem de tempo inspirada em Moonlight – Sob a Luz do Luar com a narrativa que começa na infância, passa pela adolescência e chega à fase adulta, sempre tendo a Ação de Graças como pano-de-fundo.

O final da temporada de Master of None não é tão misterioso quanto o fim dos filmes A Aventura ou A Noite, quando Antonioni deixa a dúvida nos espectadores propositadamente tanto em resolver o mistério do desaparecimento de Anna quanto a conciliação do casal vivido por Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni, respectivamente. Porém, há uma reconciliação merecida para os personagens que acompanhamos em Master of None. Muito provavelmente eles não estarão nesse mesmo estado quando nos encontrarmos novamente. Mas Master of None nos convida a sentirmos o mesmo alívio que eles sentem quando suas vidas parecem temporariamente resolvidas. A inquietação é um estado permanente do ser humano e por isso não seremos surpreendidos quando encontrarmos novamente esses personagens e suas vidas estarem completamente mudadas e transformadas – esperamos que para o bem.

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/Netflix]

2 thoughts on “Como Aziz Ansari fez da 2ª temporada de ‘Master of None’ uma obra-prima

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