Como sobreviver a 4 anos desse governo?

Tem um pedinte fixo numa sinaleira que passo todos os dias à caminho do trabalho e a gente começou a construir um relacionamento. É que, de alguma forma, eu me sinto culpada pela situação dele e sempre que ele passa por mim não consigo ignorar. Dia desses eu tinha um pacote de biscoito de sal no carro – entre os lanches que levo para o trabalho – e entreguei entusiasmada. Mas em todos os outros dias sinto vontade de me enfiar num buraco, quando ele chega com uma plaquinha “AJUDA” e aquele sorriso de Monalisa que me intimida. O que será que pensa de mim?

Nos últimos três meses eu contei quatro pedintes que me abordaram e me deixaram na mesma situação. Em shoppings, na praia e, principalmente, em sinaleiras, contando suas histórias de cortar o coração e me deixando culpada por não andar com nem um puto na carteira, só com cartão de crédito. “Perderam empregos”, “não têm como comprar um botijão de gás”, “estão passando fome”. Eles estão entre os mais de 101 mil brasileiros em situação de rua em todo o país, de acordo com dados de 2015 do Ipea. Mas o número deve ser maior porque é difícil mensurar o caso dos pedintes.

Ter consciência de que há pessoas passando fome diariamente traz sentimentos difíceis de lidar, ainda mais fortalecidos quando você lê que o presidente do país desdenha por aí: “falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”. Mas se para mim que tenho o privilégio de um emprego e comida na mesa está complicado, imagine para que não tem nada disso? A esperança de viver dias melhores com um país sem miséria o vai por água abaixo. Ficamos desesperados e com a saúde mental desgraçada. Me pergunto como sobreviver a quatro anos desse governo.

Nas redes sociais, muita gente se sente da mesma forma e sofre com as mesmas preocupações. Tanto que a quantidade de contas que dão conselhos sobre como manter a saúde mental equilibrada se multiplicou como Gremlins: skincare, meditação e terapia estão na lista de tratamentos para uma classe média que sofre. Da minha parte, afogo minhas mágoas em doces e comédias românticas, que não resolvem os problemas e só funcionam como paliativos para a realidade que não dá mostras de melhora no horizonte.

Larissa Seixas
Formada em Jornalismo, mestre em Mídias Digitais, trabalha com Publicidade e escreve nas horas vagas. Está viciada em notícias, Twitter e Instagram, mas quando preciso descansar coloco/leio uma comédia romântica. Gosta de ler, pensar, discutir e escrever - basicamente o que me faz estar aqui.

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