Conselhos para a quarentena, por Cheryl Strayed

De 2008 a 2012, Cheryl Strayed (autora do best-seller Livre, 2012) escreveu a coluna Dear Sugar, no The Rumpus, onde respondia cartas de leitores que buscavam conselhos sobre a vida. A coluna fez tanto sucesso que gerou seu primeiro livro Pequenas Delicadezas e se transformou no podcast Dear Sugars, pelo The New York Times.

Agora, durante a quarentena, Cheryl tem buscado conselhos em vez de dá-los. Em seu novo podcast Sugar Calling, ela entrevista escritores com muitos anos de experiência e ideias sobre a condição humana, em busca de entender um pouco mais sobre como sobreviver à quarentena e à vida.

Cheryl deu uma entrevista ao Longform, de onde destacamos alguns trechos bacanas sobre fazer planos, processo de escrita, experiência de vida e um conselho sobre como encarar esse momento de isolamento.

Sobre aceitar a incerteza da quarentena

A vida é incerta e essa situação extrema e profunda nos relembra dessa verdade: a gente acha que sabe o que vai acontecer em nossas vidas, mas não sabemos. Nós temos habilidade de fazer planos, e muitos dos nossos planos se realizam, mas a falta de planejamento ou de controle deste momento é muito estressante. Ao mesmo tempo, achamos que o mundo pode encontrar uma vacina ou alguma descoberta que mude o cenário atual, mas na verdade, essa mudança não deve se dar ainda neste ano.

Sobre quarentena e criatividade

Agora não é hora de ser criativa. Eu estou trabalhando e tenho um deadline para entregar um roteiro, mas estou muito distraída, estou cozinhando muito mais do que eu cozinhava antes.

Sobre seu processo de escrita

Para mim, é sempre difícil escrever, e eu até me pergunto porque faço isso. Eu tenho que batalhar com muitas vozes na minha cabeça, como “isso é bobo, ninguém vai ler isso que você está escrevendo, isso não é tão bom quanto ‘Livre’, ou as pessoas que odiaram ‘Livre’ vão odiar isso também”. Parte do meu processo é dizer ‘apesar de todos vocês na minha cabeça, eu vou começar a escrever’. O medo que sinto da minha escrita não é comparado a nenhum outro medo na minha vida.
(…)
Resistência é parte do meu processo de escrita. Ter feito sucesso também deixa tudo mais difícil. Além do medo de não agradar, eu tenho medo de decepcionar as pessoas. Mas aí eu penso ‘você tem que fazer de qualquer forma, você nunca vai conseguir agradar todo mundo’.

Sobre sua relação com ambição

A gente tem uma ideia de ambição limitada. Eu sempre fui uma pessoa ambiciosa, mas era como um segredo escondido em mim, porque ela se revelava na minha força para continuar escrevendo mesmo em momentos em que ganhava dinheiro servindo mesas. A minha ambição se mostra quando eu tenho o ímpeto de dizer sim a alguma coisa que me deixa animada.

Sobre a experiência dos mais velhos

Falar com pessoas mais velhas nos lembra da importância do tempo, porque a gente sempre acha que está numa situação ruim que não vai conseguir sair. Mesmo quando a gente sabe que não é assim, a gente pensa ‘isso é tão difícil, eu não aguento mais’. A experiência mostra que há sempre algo lá na frente, dias melhores, mais felizes, sempre vai haver mudança. Conversar com essas pessoas me abriu a possibilidade de me sentir calma, em dias que não estão sendo fáceis.

Um conselho sobre como passar a quarentena

Se eu fosse dar um conselho, eu diria para tentar ficar no presente, tentar fazer o melhor todos os dias, não gastar energia no que a gente não sabe que vai acontecer lá na frente. Eu acho que o nosso trabalho – nós, pessoas que ainda não sofremos ou perdemos ninguém para o vírus – é o de cuidar da gente mesmo e cuidar dos outros e não ficar pensando ‘e se isso acontecer, ou se aquilo acontecer’. Esses pensamentos não fazem nada além de esgotar a gente e são meio egoístas também, porque fazem com que a gente não esteja em nosso melhor para contribuir nesse momento. Por isso temos que ser fortes.

Larissa Seixas
Jornalista e especialista em Mídias Digitais, trabalha com Publicidade e escreve nas horas vagas. É viciada em notícias, Twitter e Instagram, filmes e livros de romance.

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