Cinema

‘Corpo e Alma’ expõe dificuldades de casal que não sabe amar

Relações interpessoais não são fáceis. Ainda mais quando se trata de ambiente de trabalho, quando qualquer interação pode carregar algum significado: se você é mais fechado, pode precisar conviver com outros funcionários falando de você e sem qualquer intenção de esconder; mas se você é muito espontâneo, é capaz então que a sua personalidade e o seu jeito virem alvo de críticas. No final das contas, é muito difícil agradar a todos e ser você mesmo, seja em um ambiente de trabalho ou em qualquer outro nível de relacionamento. Para se dar bem, o que é necessário é se entregar por completo. De corpo e alma.

No filme Corpo e Alma, gosto do título desse novo trabalho da diretora húngara Ildikó Enyedi, que estava há 18 anos sem filmar e é o representante da Hungria no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, a história (escrita pela própria Enyedi) acompanha Mária (Alexandra Borbély, em uma das atuações do ano) quando esta assume o lugar de inspetora de qualidade de um abatedouro. Seu jeito sério e de poucos amigos deixam os funcionários preocupados sobre as normas aplicadas por ela que, ao contrário do antecessor, deseja seguí-las à risca. Seu chefe é Endre (Morcsányi Géza), o diretor financeiro. E inesperadamente surge uma faísca de romance entre os dois quando coincidentemente ambos dividem o mesmo sonho.

Com essa trama, Corpo e Alma poderia facilmente adotar um posicionamento onírico em relação à história, mas prefere no entanto crer na chance que esse romance pode ter como impacto positivo na vida desses dois personagens. Porque além da coincidência de dividirem o mesmo tipo de sonho e de estarem se relacionando nele, Mária e Endre carregam traumas e feridas que não foram superados ou curadas. Ela tem aversão a qualquer tipo de toque – e logo em uma das primeiras cenas do filme Enyedi a enquadra com o corrimão de uma escada tapando a sua boca, numa cena ao mesmo tempo bela e dolorosa. Já Endre, além de relacionamentos fracassados, convive com a dor permanente de um dos braços ser paralisado e de não ter muitos amigos – o seu almoço é dividido com o diretor de recursos humanos, alguém insuportável que se ele pudesse teria o prazer de não aceitar os pedidos de almoçarem juntos.

Foto: Reprodução

Corpo e Alma não é um filme que explicita o que está acontecendo ou segue uma narrativa comum de romance. Ildikó Enyedi opta por incorporar significados à história que vão dando pistas de como cada um está se sentindo em relação ao outro. Assim, tem os momentos de angústia quando Mária se arrepende de ter recusado que Endre a ligasse à noite, tem a solidão quando ambos não conseguem dormir e por fim a descoberta, quando um decide tomar decisões pensando no outro para continuarem se conhecendo. A monotonia de suas vidas, filmada por uma câmera que se move pouco e foge de multidões (a cena quando Mária se esconde do sol atrás de uma pilastra, dando as costas para os outros funcionários que interagem alegremente entre si ou a rotina constante de vermos Endre em seu silencioso escritório ou sua escura casa), nos conduzem através de uma estratégia de ações onde cada um pensa excessivamente sobre qual o próximo passo deve ser dado, expondo claramente que nem Mária e nem Endre sabem como amar ou se entregar completamente ao outro.

É assim que acontece nas relações, não é? Há uma tendência para ficar na defensiva. Mária e Endre passam por isso também. E mesmo quando Corpo e Alma parece caminhar para uma história trágica de amor, o filme dá uma reviravolta e lança um olhar de esperança nesse relacionamento depois de terem enfrentado dores e angústias. Numa primeira análise, achei que Ildikó Enyedi não compartilhava dessa visão pelo desfecho vazio que o filme traz. Porém, refletindo mais sobre Corpo e Alma, percebi que o vazio na verdade tratava-se de uma aquietação que Mária e Endre conquistaram, com eles à vontade sobre as particularidades e jeitos do outro. Corpo e Alma é um filme que nos questiona, provoca. E se o espectador estiver disposto a se aprofundar em sua narrativa, o filme tem tudo para surpreender e recompensar.

Assista o trailer:

Corpo e Alma (On Body and Soul, 2017)
Direção: Ildikó Enyedi
Roteiro: Ildikó Enyedi
Elenco: Alexandra Borbély, Morcsányi Géza, Zoltán Schneider, Ervin Nagy e Tamás Jordán.
Duração: 115 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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