Cinema

‘Corra!’ transforma racismo em terror social angustiante e aterrorizador

Exibido no festival de Sundance no início do ano na tradicional sessão de meia-noite, normalmente usada para medir a aceitação de um determinado filme antes de lançá-lo ao mercado, Corra! alcançou uma unanimidade surpreendente. Naquela época a crítica presente em Park City falava muito sobre Moonlight: Sob a Luz do Luar (leia a resenha), filme de Barry Jenkins que venceu o Oscar de Melhor Filme no mês seguinte.

Tanto Corra! quanto Moonlight tem muitos pontos em comum: dirigidos por dois cineastas negros e jovens e que retratam com sensibilidade o negro na tela (seus questionamentos, preocupações e senso de sobrevivência para superar as adversidades), mas principalmente abrem possibilidades para o cinema abraçar muito mais essas histórias e esses personagens.

Corra! é o típico filme que quanto menos souber sobre a história maior é a chance de se surpreender e se chocar. O roteiro, escrito pelo próprio diretor Jordan Peele (que lutou para financiar essa história desde 2008), acompanha a história do fotógrafo profissional Chris (Daniel Kaluuya) e o encontramos ansioso pois vai conhecer a família da sua namorada branca, Rose (Allison Williams). Ao chegar numa enorme casa localizada no subúrbio, seus pais, o neurologista Dean Armitage (Bradley Whitford) e a psiquiatra Missy Armitage (Catherine Keener), parecem amigáveis e não demonstram nenhuma surpresa ou aversão à Chris por conta da sua cor. Um alívio porque parece que as coisas darão certo.

Foto: Reprodução

Enquanto isso, Rose demonstra ser companheira, compreensível e disposta a bancar o relacionamento com Chris. Seu comportamento lembra o de Katherine Hepburn na comédia Adivinha Quem Vem Para Jantar (1967), quando leva o seu namorado negro vivido por Sidney Poitier (ótimo como sempre) para conhecer seus pais, que ficam completamente chocados quando descobrem que a filha está prestes a se casar com um negro. Em Corra! tudo corre na direção oposta porque Chris começa a suspeitar da família e do que acontece de verdade naquele lugar pelos comportamentos incomuns e bizarros da empregada doméstica e do jardineiro, ambos negros e cujas expressões evidenciam que eles não parecem ter controle algum sobre eles mesmos.

O nervosismo e ansiedade de Chris que tanto o perturba no início do filme, que ele confidencia à empregada quando diz “fico nervoso quando estou cercado apenas por pessoas brancas”, está nos mínimos detalhes das imagens captadas por Peele e também do seu próprio roteiro. Em um ano marcado pelos ótimos documentários Eu Não Sou o Seu Negro e O.J.: Made in America, não é de se surpreender com o comportamento preocupado de Chris. Apesar dos pais e dos convidados tentarem deixá-lo confortável, como o pai de Rose que diz que votaria novamente em Obama em caso de um terceiro mandato ou de um convidado quando diz que “preto está na moda” (como se a cor de uma pessoa pudesse indicar ou se comparar a uma tendência), Jordan Peele vai pouco a pouco mudando a narrativa e tornando a narrativa mais claustrofóbica, cada vez mais ameaçadora e cercada por mistérios.

Foto: Reprodução

Quando o pai de Rose cita Obama mais parece uma justificativa como quem diz “elegemos um presidente negro, ou seja, superamos o racismo de 400 anos nesse país”. Corra! deixa claro que isso está longe de ser superado, apesar de alguns longas-metragens à época da eleição de Obama ter refletido certo otimismo em relação ao respeito às diversidades, como o multiculturalismo presente em O Casamento de Rachel (2008). Porém, já no final do seu mandato e os Estados Unidos ficando mais e mais polarizado, o pessimismo serviu para lembrar a quem tinha esquecido a História que marcou a Guerra Civil e a luta pelos Direitos Civis que deixaram tantos líderes negros mortos, sendo narrados em documentários (como os já citados nesse artigo) ou mesmo em filmes de ficção inspirados em fatos reais como em Loving (2016).

Enquanto Corra! vai revelando os segredos da família Armitage e da seita a qual aquelas pessoas que frequentam a casa deles e fazem parte, o filme evidencia a natureza bizarra dessas pessoas e do que de fato pretende contar. O objetivo dessas pessoas é voltar a transformar negros em escravos por meio de técnicas de hipnotização que os deixam sem nenhum controle sobre suas vidas (como se eles estivessem vivendo novamente na época da escravidão, e o figurino usado por eles quando estão hipnotizados remete justamente àquele período).

Jordan Peele faz um trabalho realmente notório, porque o seu filme percorre diversas vias para mostrar como os negros se sentem claustrofóbicos vivendo nessa sociedade cuja elite branca ainda pensa em menosprezá-los e usá-los como quiserem. Corra! choca quando a verdade vem à tona, assusta nas sequências de suspense bem filmadas por Peele e angustia como retrato de uma realidade que só não enxerga quem talvez seja muito parecido com a família Armitage e a seita que criaram. Assista o trailer:

Corra! (Get Out, 2017)
Direção: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, Caled Landry Jones e LilRel Howery.
Duração: 104 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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