'Crisis in Six Scenes' é apenas uma diversão para Woody Allen

Na conversa com o seu barbeiro, Sidney J. Muntziger (Woody Allen) fala que está escrevendo uma série de TV. De forma imediata, seu barbeiro pede que a história seja melhor do que o seu livro anterior, o qual ele levou todo um outono para ler. Eis que Muntziger rebate dizendo “vou tentar ser racional”.

Ao final dos seis episódios da sua primeria (e talvez) última incursão na TV em Crisis In Six Scenes, disponibilizada pela Amazon Prime na sexta-feira (30), é muito difícil saber se Woody Allen se manteve fiel a essa racionalidade porque tudo o que mais vemos na série são personagens tomando decisões irracionais. Mas esse não é nem de longe o problema da série, que reside em uma chata discussão de ideologias que não leva a lugar algum, seja a série ou seus personagens.

[ATENÇÃO: SPOILERS A PARTIR DAQUI]

Ambientada na década de 60 de forte efervescência de ideias revolucionárias por movimentos dos Direitos Civis e contra a guerra do Vietnã, Crisis in Six Scenes acompanha o casal Sidney e Kay Muntziger (Elaine May, simplesmente ótima), que vivem no subúrbio e levam uma vida muito confortável até a repentina chegada de Lennie Dale (Miley Cyrus), uma fugitiva que está sendo procurada pelos agentes do governo e que se abriga na casa dos Muntziger alterando completamente a ordem das suas vidas.

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Lennie enche o casal e o sobrinho Alan Brockman (John Magaro), visitante na casa dos Muntziger e perto de se casar com Elle (Rachel Brosnahan), de ideias revolucionárias, cita Mao Tse-Tung, Karl Max e outros autores, convidando eles a se juntarem a essa luta por um país melhor e diz que muitas vezes para se chegar até lá é preciso sujar as mãos. Uma ideia completamente oposta ao conservadorismo de S.J Muntziger, que não está preocupado com os movimentos sociais (sua preocupação é se parecer com o James Dean) que estão ocorrendo preferindo olhá-los de longe e sem esbanjar qualquer participação – algo impensável para Kay, uma mulher que é muito distinta do seu marido em praticamente tudo que ele cogita pensar. No entanto, os dois têm uma boa relação.

Crisis in Six Scenes acerta na dinâmica do casal, já que o personagem de Woody Allen vive reclamando de todas as decisões erradas de Lennie enquanto que Kay apoia e até começa a levar os livros sugeridos pela moça ao seu clube de leitura. A série quer estabelecer uma relação com o que acontece nos dias atuais – um dos amigos do casal até diz “quem poderia imaginar que a América estaria tão polarizada hoje”. Bem, pulando mais de quarenta anos, a América continua dividida. Fico me perguntando se todas as ideologias colocadas no roteiro por Woody Allen buscam, em certa maneira, dar uma solução para o que está ocorrendo. Mas, para mim, não levou a lugar nenhum.

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E por isso Crisis in Six Scenes torna-se verborrágica demais à medida que os episódios passam já que, como vai ficando claro, nada daquele discurso dá indícios de que vai mudar a vida dos seus personagens. Quando cheguei ao quarto capítulo, algumas cenas engraçadas que me faziam rir no início (S.J Muntziger reclamando que Lennie come tudo o que é dele ou Kay tentando aconselhar casais a se entenderem reservam algumas boas risadas) transformaram-se em sequências chatas e repetitivas, porque tudo acaba girando em torno do que S.J Muntziger pensa como conservador em contraponto ao liberalismo e juventude de Lennie, que encontra aceitação e apoio em Kay.

Apesar desses problemas, nos últimos dois episódios Crisis in Six Scenes estabelece um ritmo à sua narrativa que em nenhum momento conseguiu alcançar nos capítulos anteriores. Fica claro que a chegada de Lennie e suas ideias serviram muito mais como uma aventura para os Muntziger, tão presos em sua rotina, do que necessariamente fazê-los participarem de algum protesto contra a guerra ou marcharem a favor dos direitos civis. No final, a pretensiosidade de Woody Allen falou mais alto do que o racional. E por isso a série se perde tanto em suas próprias ideias e em outras que se apropria.

[Crédito da Imagem: Divulgação/Amazon]

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