Séries

David Fincher e o seu cinema de imprevisibilidades e narrativas inesquecíveis

David Fincher se tornou um dos grandes cineastas do nosso tempo e por isso há sempre uma expectativa em torno dos seus trabalhos. Agora mesmo todos os olhares se voltam para Mindhunter, nova série da Netflix que estreia no dia 13 de Outubro e a qual ele dirige os primeiros episódios e atua também como produtor-executivo ao lado de Charlize Theron (saiba mais sobre o programa aqui). Obviamente, não é por acaso que o seu nome é tão celebrado.

David Fincher dirigiu provavelmente os grandes filmes que marcaram, ao menos, duas décadas. Filmes como Clube da Luta (1999), Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995) marcaram os anos 90. E depois em A Rede Social (2010), A Garota Exemplar (2014) e Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (2011), foi a vez dos anos 2000 serem marcados. E uma tendência acompanha esses lançamentos: a linguagem definida por ele nesses filmes costuma ser imediatamente usada pela indústria hollywoodiana logo na sequência, preenchendo os cinemas com outros filmes com o mesmo tipo de clima.

Averso a filmes com finais felizes e respeitado por trazer histórias intrigantes em todo projeto que escolhe, Fincher é notadamente conhecido por ser um cineasta que não segue as regras de Hollywood e, talvez por isso, escolha cuidadosamente o que faz – e os estúdios sabem que, ao depositarem dinheiro em seus trabalhos, não irão se deparar com algo comum e normal.

Mindhunter estreia na Netflix no dia 13 de outubro (sexta-feira). | Foto: Divulgação/Netflix

Agora David Fincher volta a um tema em Mindhunter que se encaixa perfeitamente dentro da sua ideia de filmes: personagens paranoicos e psicopatas que seguem uma vida relativamente normal enquanto planejam assassinatos, criam padrões e chocam a sociedade. Certa vez ele disse que “as pessoas vão aos cinemas para serem lembradas de que está tudo bem. Bom, eu não faço esse tipo de filme. Isso pra mim é uma mentira. Nada está bem”.

É engraçado notar que em seus dois filmes sobre serial killers, as obras-primas Seven – Os Sete Crimes Capitais e Zodíaco (2007), David Fincher pouco entra na mente dos seus assassinos na tentativa de entendê-los. O seu acompanhamento é mais sobre a investigação, o impacto das ações dos personagens, a violência e a frieza com a qual esses assassinos em série atuam.

Mas em Mindhunter, baseada em livro lançado em 1996 escrito por Mark Olshaker e John Douglas, ex-agentes do FBI, acontece o oposto porque a ideia da série gira em torno de uma nova divisão criada dentro do FBI para estudar as mentes dos assassinos em série, entendê-los e formatar padrões de ações para que esses estudos se transformem em referência para o FBI em lidar com outros perfis como esses que estão estudando.  E o que podemos esperar durante esse processo é uma curva descendente de seus personagens, como já vimos em muitos dos seus trabalhos anteriores.

Assista o trailer:

Personagens em conflitos

David Fincher analisou na época do lançamento de A Garota Exemplar que Alfred Hitchcock e Martin Scorsese influenciaram a sua obsessão em levar os seus personagens para fora de suas zonas de conforto. “Foi numa sessão de O Rei da Comédia, de Scorsese, quando Robert De Niro leva a sua namorada para a casa de Jerry Lewis, que eu pude sentir o quanto as pessoas começaram a se sentir desconfortáveis dentro do cinema. E eu sempre quis trazer isso para os meus filmes”, conta Fincher.

No filme Zodíaco talvez seja um dos seus mais notáveis trabalhos que é possível perceber isso. Fincher brinca com os seus três protagonistas, seja o experiente repórter que se vê envolvido na investigação, ou a obsessão do delegado que o leva a quase arruinar a própria vida e até o cartunista do jornal que começa a desvendar a identidade do serial killer. Mas mesmo em filmes menos policiais, como em A Rede Social, Fincher vai evoluindo essa sua técnica e nos leva a ver seus personagens fora de suas zonas de conforto o tempo inteiro quando intercala a narrativa do nascimento do Facebook com as reuniões que levam a acordos multimilionários entre as partes envolvidas.

A habilidade de Fincher em traduzir isso na tela é uma de suas principais características. Assim como Quentin Tarantino faz tão bem, Fincher é mestre em estabelecer pouco a pouco o tom de seu filme. O que me faz lembrar da tensão dos diálogos entre Daniel Craig e Stellan Skarsgard na cena de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres que leva Craig a descobrir os mistérios da família Vanger. É aquele tipo de situação que Fincher sabe como estabelecer, nos levando a sentir a imprevisibilidade do que vem a seguir.

O estado de catarse

A condução dessa narrativa invariavelmente nos leva a um estado de catarse. A personalidade alternativa de Jack em Clube da Luta é o exemplo claro disso e de uma outra marca importante de seus trabalhos: a transformação da personalidade de seus protagonistas que começam de um jeito e acabam se transformando em algo completamente diferente daquilo que podíamos prever.

Esse estado catártico sempre nos carrega para as cenas mais insanas filmadas pelo diretor, seja a pancadaria sem regras de Clube da Luta, a cena violenta de A Garota Exemplar que nos faz pular da poltrona da sala de cinema ou a violência e incômodo provocado por aquelas sequências de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres quando Lisbeth Salander (Rooney Mara) é forçada a transar com o seu guardião.

O cinema de David Fincher é isso. Pode ser visto como um resultado de incomodar a audiência, mas é muito mais para nos tirar também da nossa zona de conforto enquanto ele faz o mesmo na construção narrativa dos seus filmes. É mais uma vez algo que podemos esperar em Mindhunter? Sim, apesar de Fincher não dirigir todos os episódios e dividir esse trabalhos com outros cineastas renomados (Asif Kapadia, documentarista de Senna e Amy, é um deles). Porém, novamente, esse é mais um projeto onde impera o imprevisível.

E é por isso que David Fincher nos arrasta para assistir tudo o que ele faz, porque sabemos que ele nos levará por uma experiência que poderá ser desconfortável, mas ao menos inesquecível.

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