Cinema

‘De Canção em Canção’ é o filme mais acessível de Terrence Malick dos últimos anos

Desde que iniciou essa fase de tramas desfragmentadas onde a câmera percorre várias imagens cujo sentido é o mínimo que se espera, Terrence Malick foi cada vez mais impondo sua estética e estilo em detrimento da história e da forma. O mesmo acontece em De Canção em Canção, seu mais recente trabalho e que foi exibido durante o Festival SXSW nesse ano. A diferença é que nesse filme é perceptível que existe traços de uma história sendo contada, ainda que mais uma vez o estilo se sobressaia.

Filmes como Voyage of Time: Life’s Journey (2016) e Cavaleiro de Copas (2015) são obras cujas estruturas ficcionais ou narrativas inexistem. De Canção em Canção também dá pistas de que essa preocupação não é o que move o filme, sendo o tempo um elemento desafiador para o espectador perceber como os personagens estão se movendo enquanto interagem entre eles mesmos a partir de colagens que foram captadas pela câmera do diretor.

O que move então a engrenagem narrativa desse novo trabalho é o triângulo amoroso entre os músicos BV (Ryan Gosling), Faye (Rooney Mara) e o produtor artístico Cook (Michael Fassbender). Eles se conhecem no meio musical e frequentando festivais de música, quando Cook sempre surge oferecendo contratos com gravadoras e oportunidades para tocar em grandes eventos. Tanto BV e Faye caem na armadilha de confiarem que Cook tem boas intenções, quando na realidade sua personalidade mesquinha é justamente o que muda as vidas de BV e Faye, os afastando tanto do amor que sentem um pelo outro quanto do sonho de serem estrelas da música.

Terrence Malick entra nos pensamentos desses personagens com o intuito de descobrir quais são suas fraquezas, seus medos e o que eles estão dispostos a fazer para seguir seus sonhos. É claro que isso não é feito de modos convencionais. Estamos em um filme do Terrence Malick, nada é convencional em uma narrativa que caminha em círculos e fora de contexto com os próprios personagens principais da história pulando de relacionamento e relacionamento, como pulamos de uma música à outra enquanto ouvimos um disco, e vivendo fases que eles não conseguem equilibrar o lado pessoal com o modo de vida que estão dispostos a ter.

Mas ainda que De Canção em Canção não seja um filme considerado normal, para os padrões dos últimos trabalhos de Terrence Malick esse longa-metragem é ao menos mais acessível, palatável. Não quer dizer, no entanto, que chegamos a ponto de nos importarmos com os personagens. Mas vale destacar quanto a isso as atuações do trio Gosling, Mara e Fassbender, que entregam poderosas atuações – assim como a própria Natalie Portman, apesar de sua personagem aparecer e desaparecer em vários momentos do filme de formas abruptas que às vezes nos esquecemos que ela também faz parte da narrativa.

Malick tenta inclusive dar verossimilhança à De Canção em Canção quando traz imagens e depoimentos de artistas reais vivenciando e experimentando esse mundo que pouco conhecemos, como a banda Red Hot Chilli Peppers e os cantores Patti Smith e Iggy Pop. De Canção em Canção termina de forma esperançosa no caso de alguém precisar enxergar no filme algo que consiga combater as frustrações da vida. Há sempre outras coisas a fazer, novas oportunidades a seguir, sendo que o mais importante é não se esquecer quem de fato você é.

Assista o trailer:

De Canção em Canção (Song to Song, 2017)
Direção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Rooney Mara, Ryan Gosling, Michael Fassbender, Natalie Portman, Cate Blanchett e Holly Hunter
Duração: 129 minutos

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