De membro de gangue a presidente: as melhores atuações de Daniel Day-Lewis

No meu mais antigo blog, o Sob a Minha Lente, lembro-me de ter escrito na resenha sobre Sangue Negro (2007) que Daniel Day-Lewis era o melhor e maior ator da sua geração. Disse aquilo com muito entusiasmo após um período o qual ele não atuava. Nessa semana sua porta-voz anunciou que Daniel Day-Lewis vai se aposentar. Aos 60 anos e com uma carreira premiadíssima, o ator para no auge prestes a estrelar o mais novo trabalho de Paul Thomas Anderson e já candidato forte às próximas premiações.

Descobri Daniel Day-Lewis por meio da minha mãe, viciada durante um tempo naquele filme O Último dos Moicanos. A fita VHS estava quase todo final de semana lá em casa. E foi por causa dessa obra que saí em busca das outras. O filme seguinte que eu assisti foi Em Nome do Pai, também com minha mãe. Não lembro quantos anos eu tinha. Possivelmente, ainda muito novo porque essas são memórias de um tempo que morei no interior da Bahia. Na capital, em Salvador, e já obcecado pela arte dos filmes, corri atrás para assistir o máximo que eu conseguiria encontrar da sua obra. Com a Internet isso ficou muito mais fácil depois. Hoje, então, presto essa homenagem às suas atuações.

É difícil encontrar uma carreira tão celebrada e prestigiada como a de Daniel Day-Lewis. Sua imersão em cada papel lhe rendeu títulos engraçados do “modo Day-Lewis” e ajuda a explicar muito suas decisões em participar de um filme e o por quê de levar tanto tempo entre um trabalho e outro. Cada um dos filmes citados abaixo têm um pouco dessas particularidades, que aí merecem ser discutidas em um outro post (quem sabe?). Por enquanto, segue abaixo a minha lista com as suas atuações que mais me impactaram nesses meus (poucos) anos de cinefilia:

10. O Último dos Moicanos (1992)

O Último dos Moicanos não tem aquele Daniel Day-Lewis que nos acostumamos a ver. Ainda assim, é um bom filme. Sua atuação genérica aqui não compromete o trabalho da narrativa, muito diferente de Nine, por exemplo, que é de longe o pior filme que eu assisti com Daniel Day-Lewis.

9. À Época da Inocência (1993) e Uma Janela para o Amor (1985)

Eu não consegui desempatar essa disputa. Não são filmes onde Day-Lewis atua como o protagonista da história, mas nos momentos em que ele aparece em cada um desses filmes ele sabe como tornar o seu personagem tridimensional aos nossos olhos, alguém com conflitos assim como as protagonistas da história que passam por um arco narrativo de subidas e descidas. À Época da Inocência marca a sua primeira contribuição com o diretor Martin Scorsese. Há uma forma graciosa com a qual ele atua em ambos filmes, adaptados de uma literatura clássica e cujo brilho está destinado para as atrizes Winona Ryder (À Época da Inocência) e Maggie Smith e Judi Dench (Uma Janela para o Amor).

8. O Lutador (1997)

Confesso que a fase de filmes irlandeses protagonizados por Daniel Day-Lewis continua sendo pra mim um dos seus melhores momentos. O Lutador é um exemplo disso, fruto de mais uma parceria com o diretor Jim Sheridan. Interpretando o membro do IRA Danny Flynn, Day-Lewis surge imponente com a sua altura e frieza no ringue, ao mesmo tempo que carrega a solidão de ter ficado 14 anos preso enquanto tenta se reerguer deixando para trás um grupo terrorista que teima em lhe perseguir. Um grande filme e mais uma grande atuação.

7. Gangues de Nova York (2003)

Tem pouco tempo que revi esse filme. Juntar Daniel Day-Lewis e Martin Scorsese num mesmo filme é fazer a alegria deste que vos escreve em dobro. Mas Gangues de Nova York se mantém um filme confuso para mim. Se eu não consigo gostar tanto assim do filme, o que me mantém atento à obra é a atuação de Daniel Day-Lewis como Bill “The Butcher” Cutting. É uma imnterpretação muito diferente do que ele fez em toda a sua carreira por ser performática demais. Mas que combina com a loucura e monstruosidade do personagem, que sempre quando aparece em cena torna-se imprevisível e amedrontador.

6. Meu Pé Esquerdo (1989)

Daniel Day-Lewis interpreta aqui o pintor e escritor Christy Brown, que nasceu com uma paralisia cerebral a qual ele só conseguia mover o seu pé esquerdo. A primeira vez que eu vi esse filme eu não pude resistir ao trabalho meticuloso de Day-Lewis, que você sente quando o vê na tela, e revi imediatamente em seguida. É um trabalho tão denso, ao mesmo tempo que é intenso, porque Daniel Day-Lewis não tem nenhuma disfunção em seu corpo, não sofre de nenhuma paralisia. E o fato dele ter conseguido recriar a deficiência de Brown mostra a sua capacidade de atuação. Ele venceu o seu primeiro Oscar com esse filme.

5. Minha Adorável Lavanderia (1985)

Talvez seja um dos seus filmes menos conhecidos, suponho eu. Mas é uma de suas melhores performances. Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro naquele ano, assisti Minha Adorável Lavanderia tardiamente após ter visto muitos filmes de Day-Lewis e é surpreendente vê-lo interpretando um personagem punk, subversivo como o Alex DeLarge de Laranja Mecânica (1971), mas sabendo expressar traços humanos sensíveis à medida que ele vai se apaixonando por Omar no filme e aflorando a sua sexualidade. Não tem nada a ver com as atuações refinadas de seus filmes cujos roteiros foram adaptados da literatura clássica britânica. Minha Adorável Lavanderia está mais próximo da rebeldia de um dos seus personagens que comento mais à frente.

4. A insustentável leveza do ser (1988)

Daniel Day-Lewis interpreta nesse filme dirigido por Phillip Kauffman o médico Tomas, mas pode chamar de sedutor Tomas. E Day-Lewis se sai muito bem no papel, no jogo de cena com Juliette Binoche, deixando transparecer à medida que o filme avança em como seu personagem vai sendo preenchido por camadas mais complexas ao atingir nuances que só um ator com o seu talento conseguiria entregar.

3. Lincoln (2012)

Interpretar Abraham Lincoln deve ter sido um dos papéis mais desafiadores para Daniel Day-Lewis, apesar de nem mesmo eu concordar com essa afirmação que faço porque imagino que todos tenham sido. Mas enquanto Spielberg estava lá tentando fazer um grandioso filme para uma importante figura da história americana, e do mundo, Daniel Day-Lewis se preocupou em encontrar os traços humanos deste homem. E ele encontra justamente isso, alguém feito de carne, osso e sangue o qual conseguimos notar seus conflitos, erros e acertos. Alto e imponente, mas também cansado da Guerra Civil. E Day-Lewis o interpreta da mesma forma lendária com a qual sua reputação é lembrada, lhe garantindo o seu terceiro Oscar e se tornando o único ator com três estatuetas.

2. Em Nome do Pai (1993)

Perdi a conta de quantas vezes assisti esse filme. Tem duas grandes cenas, a primeira no final do julgamento e a segunda já na prisão, que são momentos que ficaram presos à minha cabeça durante muito, muito tempo. Eu sei que possivelmente outras atuações citadas aqui nesse post estariam à frente de Em Nome do Pai, mas esse filme tem um valor sentimental para mim. E a atuação de Daniel Day-Lewis nele foi quando me dei conta de que este era o melhor ator de filmes para mim.

1. Sangue Negro (2007)

Sangue Negro é definitivamente uma atuação que define todo o método de Daniel Day-Lewis. O trabalho de voz que esconde (acredite) a sua própria, a dificuldade no andar após quebrar o pé no início do filme e a forma como ele revira os olhos e as sobrancelhas quando demonstra claramente que a sua ganância não tem limites. Ao mesmo tempo tem momentos em que seu personagem surge dócil e confiante, justamente quando precisa convencer seus investidores dos seus planos. Daniel Plainview é um personagem histórico de uma atuação igualmente histórica, dessas inesquecíveis e que já está em um lugar sagrado das grandes atuações da história do cinema. E mais um Oscar para Daniel Day-Lewis!

Mas então, será que essa aposentadoria é mesmo para sempre? Considerando que ele escolhe cada papel em um intervalo de seis, às vezes oito anos, talvez possamos vê-lo novamente em algum filme no futuro. Quem sabe? Por enquanto, nos resta aguardar ansiosamente por Phantom Thread, seu último filme, dirigido novamente por Paul Thomas Anderson e dez anos após o sucesso de Sangue Negro. É, vai ser histórico e emocionante.

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