‘Destacamento Blood’ tira do obscurantismo a luta de negros na Guerra do Vietnã

Faz quase duas semanas que as principais cidades de todo o mundo, mesmo vivendo a maior pandemia de saúde que essa geração já viu e cujo único remédio é o isolamento social, foram tomadas por protestos antirrascistas contundentes após o assassinato de George Floyd pela polícia de Minnesota. A sua morte é resultado de um longo e violento conflito racial nos Estados Unidos e no mundo. O histórico de violência policial contra negros se repete em uma constância dolorosa, mas agora, mais do que em qualquer outra época, as pessoas (pretas e brancas) querem um basta.

Lutar para que histórias como a de George Floyd não sejam esquecidas é um combustível para o cineasta Spike Lee. Em seu novo filme, Destacamento Blood (disponível na Netflix Brasil), ele tira do obscurantismo o papel de negros que lutaram na guerra do Vietnã.

Destacamento Blood abre a sua narrativa com Muhammad Ali em sua oposição à guerra, para logo em seguida Lee explodir a tela com imagens violentas do conflito que podem até afastar alguns espectadores, dado o atual momento, que prefiram não assistir algo tão violento graficamente. A partir daí, Lee retrata a trajetória de quatro veteranos da Guerra do Vietnã que se tornaram grandes amigos. Eles se reencontram mais uma vez em Saigon para duas missões: recuperar os restos mortais do seu mitológico líder Stormin’ Norman (Chadwick Boseman) e recuperar as barras de ouro enterradas próximo ao local onde ele foi morto.

As primeiras sequências de uma duração total de duas horas e meia podem até enganar, pois o filme começa com um tom que lembra a comédia Se Beber, Não Case. Isso se transforma completamente quando o grupo precisa adentrar a selva, se expondo novamente aos riscos que ela impõe enquanto ao mesmo tempo reabrem feridas, traumas cujas experiências eles nunca superaram, e tendo que conviver com as diferenças e personalidades de cada um.

Spike Lee aproveita as caminhadas selva adentro para trazer comentários políticos que preenchem a tela com críticas e informação. Um dos momentos mais brilhantes é quando o grupo comenta filmes como Rambo (1985) e Super Comando (1984), que retratam em sua maioria soldados brancos que derrotam os vietcongues quando, na realidade, o percentual foi muito maior de negros do que brancos convocados para a guerra.

Um filme e vários significados

Outra característica que chama atenção neste novo trabalho do diretor Spike Lee é o fato dele e do diretor de fotografia, Newton Thomas Sigel, usarem quatro diferentes razões de aspecto ao longo do filme, que representam vários significados dentro da narrativa.

O primeiro é o enquadramento de fotografia digital em 2.39:1, cuja largura da tela contribui para enquadrar todos os integrantes do grupo. Já os flashbacks que se passam no Vietnã são filmados com referência às razões de aspecto das câmeras de 16mm, em 1.33:1, que lembram Apocalipse Now (1979) e também o formato de notícias da época. À medida que vemos o grupo andando pela selva nos dias atuais a razão de aspecto preenche a tela com o padrão 16:9, com algumas transições para o formato Super 8 de uma câmera utilizada por um dos membros do grupo.

Essas composições criadas por Lee e seu diretor de fotografia deixam o filme ainda mais belo esteticamente, nos fazendo apenas lamentar o fato de não estarmos assistindo essa história na tela grande de um bom cinema. Apesar de articular a narrativa com a sofisticação que lhe trouxeram reconhecimento e apresentar pouco a pouco as camadas que afunilam o debate do não reconhecimento dos combatentes negros na guerra do Vietnã, a aventura narrada por Lee não se esforça para sair do óbvio quanto ao vilão e ao suspense que atrapalham os planos do grupo.

No entanto, isso não atrapalha a tapeçaria de retalhos que o diretor promove, ainda mais quando isso resulta na acertada decisão de encerrar a história com o discurso do Dr. Martin Luther King um ano antes do seu assassinato quando ele se opõe à guerra – para Spike Lee, esse discurso pode ter inflado e motivado seu assassinato. Mesmo adotando um senso de urgência para uma guerra que nunca acabou (uma percepção que se estende a outros conflitos que marcaram a história da humanidade), Destacamento Blood transmite um senso de conhecimento necessário para as novas gerações que estão começando a agir politicamente neste planeta.

Vinícius Silva
Sou formado em Jornalismo e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. O vício em Filmes, Séries e nas Artes em geral me levaram à escrita.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Deprecated: Directive 'track_errors' is deprecated in Unknown on line 0