Cinema

‘Detroit em Rebelião’ é sufocante ao recriar as tensões raciais na cidade nos anos 60

Detroit em Rebelião é um desses filmes que, de tão realistas, nos atinge de uma maneira arrebatadora. Gostaria de usar tal adjetivo para falar de algo bom, mas que aqui se traduz em uma experiência tensa, perturbadora e que nos carrega através de imagens que criam uma aflição na espinha que demora um certo tempo até nos recuperarmos após a projeção. Mas isso é o que faz a câmera da diretora Kathryn Bigelow, primeira mulher a vencer o Oscar de Melhor Direção em 2008, e que está se especializando em documentar o que talvez uma parcela da população americana deseja sempre não lembrar (ou aceitar que aconteceram).

Após retratar os conflitos no Iraque em Guerra ao Terror (2007) e a caçada a Osama Bin Laden em A Hora Mais Escura (2012), Bigelow retoma a parceria dos filmes anteriores com o roteirista Mark Boal para explorar os confrontos raciais da década de 60 nos EUA, mais precisamente em 1967 e na cidade de Detroit, que implode quando os negros vão às ruas protestar contra a violência policial e sua arbitrariedade desde dar uma batida em uma casa noturna e prender as pessoas que estavam ali se divertindo até se julgarem capazes de decidir o destino de inocentes e jogar com suas vidas.

Introduzido pelas pinturas do artista plástico Jacob Lawrence sobre as massivas décadas de migração da população negra em direção aos Estados Unidos, Bigelow claramente tenta educar um pouco o espectador para assim trazê-lo para dentro da história. A trama é dividida entre três pontas: o grupo musical local The Dramatics, liderados pelo cantor Larry Cleveland (Algee Smith), que sonham em conseguir um contrato com uma gravadora como qualquer banda e vê a primeira performance ir por água abaixo quando os policias decidem que o teatro onde iriam tocar deve ser evacuado; o segurança Melvin Dismukes (John Boyega), chamado às pressas pela seguradora para proteger um estabelecimento comercial contra saques que aconteciam; e o grupo de jovens negros que estão no Algiers Motel, sendo esse o ponto de encontro onde todas as tramas se convergem na sequência mais pertubadora e agoniante de Detroit em Rebelião.

Como de costume, Bigelow adota um formato documental para o filme e intercala a sua narrativa entre filmagens verídicas do noticiário da época com outras ficcionais que ela filma com o mesmo vigor que conhecemos dos seus filmes anteriores. Assim, Detroit em Rebelião narra as origens do conflito que ganha tensão e aspectos de guerra com a chegada do exército, passa pelo suspense psicológico que é impossível de descrever pela tamanha brutalidade policial e culmina em um filme de tribunal com o julgamento dos policiais responsáveis pelo massacre de um grupo de negros e duas mulheres brancas no Algiers Motel. Usando sempre a câmera na mão, Kathryn Bigelow nos sufoca desde o início porque não há espaço para “relaxar e curtir” o filme. Detroit em Rebelião nos deixa mesmo é apavorados com a humanidade.

Acusado de ser uma obra irresponsável feita por pessoas brancas, em mais uma controvérsia como já aconteceu nas obras anteriores da dupla Bigelow e Boal, vistas por quem não deseja enxergar e analisar seus filmes, e mais precisamente Detroit em Rebelião. O poscionamento e a dura verdade dos relatos estão colocados na narrativa desde o primeiro segundo filme. E por isso não há maneiras de se encontrar conforto assistindo essa história. Testemunhamos a carreira de um grupo musical sendo traumaticamente impactada pelo o que aconteceu naquele ano, um homem de bom caráter jogado no sistema prisional a troco de nada e sem falar na dor de famílias que perderam seus entes queridos e inocentes, que lutaram apenas para serem respeitados e livres como aquela sociedade lá tanto se diz ser.

A vida é muito, muito dura e às vezes filmes como Detroit em Rebelião estão aí para nos lembrar que os meus problemas (ou talvez os seus) não representam absolutamente nada frente ao que essas pessoas viveram – e muitas delas ainda continuam vivendo. Assista o trailer:

Detroit em Rebelião (Detroit, 2017)
Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal
Elenco: John Boyega, Algee Smith, Will Poulter, Anthony Mackie, Jacob Latimore e John Krasinski.
Duração: 142 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

Jornalista e mestre em Mídias Digitais. Toma conta das redes sociais do Goodfellas.

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