“Devs” e “Westworld” usam os perigos da tecnologia para fazer boa televisão

Atualmente, duas séries de ficção científica estão sendo exibidas e discutindo os perigos da tecnologia, em variadas camadas. Uma delas é a veterana Westworld, cuja 3ª temporada estreou no último final de semana na HBO e HBO GO. A produção deu uma guinada na narrativa, trazendo a trama para as grandes cidades, onde carros autônomos, assistentes virtuais e robôs são partes da realidade e do problema.

A outra é Devs, primeira produção da recém firmada parceria entre FX e Hulu, com assinatura do diretor Alex Garland, responsável pelos ótimos filmes Ex-Machina (2014) e Aniquilação (2018). Ele escreve e dirige a história que trata sobre espionagem industrial e tem como pano de fundo uma empresa do Vale do Silício, que está desenvolvendo uma tecnologia incrível e inovadora, cujo dono é capaz de tomar medidas desesperadas para protegê-la.

O que conecta as duas séries é que ambas falam de um futuro que, se há algum tempo escreveríamos como distópicos, está bem na nossa frente. A gigante da tecnologia Huawei, por exemplo, realiza anualmente um estudo chamado Global Industry View. Em 2019, a empresa indicou as principais tendências tecnológicas que acontecerão em pouco tempo – algumas já estão inclusive em operação.

Entre os conceitos estão a possibilidade de viver e trabalhar com robôs, a criatividade aumentada com inteligência artificial, os assistentes pessoais (um estudo da empresa prevê que 90% da população que possuir um dispositivo móvel terá acesso a eles) e, por último, a computação quântica capaz de gerar e ler uma infinidade de dados em supercomputadores, e pautar nosso comportamento baseado em algoritmos.

Westworld

Todas essas tecnologias estão em pleno vapor, tanto em Westworld quanto em Devs. O que muda é o tratamento que cada série dá a elas. Westworld sai da simulação do parque temático e leva a história para dentro da cidade, enquanto apresenta duas linhas narrativas que se unem em dado momento: a primeira é a vingança de Dolores (Evan Rachel Wood) contra alguns frequentadores do parque que uma vez abusaram dela; a segunda, Westworld introduz e acompanha Caleb (Aaron Paul), veterano de guerra que está desempregado e vive de bicos utilizando um aplicativo da deep web, que lembra algo como o iFood ou Rappi, só que voltado para entregas de mercadorias duvidosas.

Westworld está uma série bem diferente com esta terceira temporada, após o banho de sangue e violência que marcou o fechamento do parque. O mistério e a incompreensão das primeira e segunda temporadas, dão lugar a uma ambientação que em muito se assemelha à Matrix, desde o figurino até alguns dos diálogos. E também ao Exterminador do Futuro, com Dolores se movendo sem qualquer remorso contra os adversários que ficarem no seu caminho.

Devs

A inovação que vemos na cidade futurista de Westworld poderia muito bem ter sido criada por Devs, nome da divisão de desenvolvimento para novas tecnologias da empresa Amaya, e que dá título à série. Forest (Nick Offerman) é o poderoso CEO que não gosta da ideia do governo regulamentar ou saber o que ele e sua equipe estão produzindo com a tecnologia. O personagem parece ter sido inspirado no mundo real, já que a falta de regulamentação do setor tecnológico resultou, por exemplo, no vazamento de dados de 87 milhões de pessoas pela consultoria política Cambridge Analytica, no escândalo que o Facebook se envolveu e precisou prestar esclarecimentos em 2018.

Essa falta de regulamentação deu a deixa para uma das frases emblemáticas do episódio de estreia de Devs, quando a física quântica Katie (Allison Pill) provoca “não sei se você entende o que realmente estamos fazendo aqui”. Sua preocupação é saber se os seus colegas compreendem o que está por trás do novo gadget produzido pela empresa. Essa mesma frase é utilizada depois por Forest durante um encontro com uma senadora, quando esta questiona o que eles estão pretendendo desenvolver.

As empresas de tecnologia sabem utilizar esse mistério e a falta de compreensão, com termos técnicos e científicos que só eles entendem, para esconder o que realmente estão fazendo. Basta relembrar do caso de Elizabeth Holmes e como ela, usando desse mesmo discurso, enganou o Vale do Silício.

Alex Garland combina esses acontecimentos reais e traz o personagem excêntrico e visionário para a psicologia da série, característica que o diretor utilizou em seus dois primeiros filmes. Por outro lado, Devs também é uma série em que Garland está explorando outros temas. Isso representa um desafio para o espectador, pois é preciso ter paciência para explorar as ideias do diretor. Ele tenta compensar isso com uma estética visualmente elegante, com um belo e complexo design de produção. E também cria um tipo de experiência sonora que lembra as experimentações de David Lynch na última temporada de Twin Peaks (2017).

A filosofia por trás das séries

Assim como em Westworld, a série também é assustadora em alguns momentos. Principalmente quando a estátua de Amaya (a filha de Forest que dá nome à empresa), que é vista de qualquer parte do campus, aparece em close-up. O maior trunfo de Devs também não está na ficção científica mas sim na filosofia por trás.

O exercício de filosofia que essas duas séries provocam, em nos fazer questionar a tecnologia desenvolvida, é perturbador. Ainda mais hoje, quando empresas têm acesso facilitado a milhões de dados que poderão ser lidos cada vez mais rápido por supercomputadores. Imaginar esse cenário é angustiante mas também desafiador, ainda mais quando a história é feita de maneira tão acertada.

Vinícius Silva
Sou formado em Jornalismo e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. O vício em Filmes, Séries e nas Artes em geral me levaram à escrita.

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