Diários do XII Panorama – Dia 03

Os três filmes da sessão noturna do XII Panorama Internacional Coisa de Cinema tiveram um elo em comum que era olhar para a cidade onde estão ambientados e representar a relação dos seus protagonistas com elas. De Regeneração, passando por Ótimo Amarelo e chegando até A Cidade Onde Envelheço, três metrópoles brasileiras estiveram presentes na narrativa.

No primeiro curta-metragem, Regeneração (2016) – que marca a estreia do ator Humberto Carrão (Aquarius) na direção – acompanha uma guia turística que está mostrando o centro do Rio de Janeiro para duas turistas coreanas. Ao mesmo tempo a cidade está se preparando para receber os jogos olímpicos e a região passando por uma profunda transformação, que pode ser vista como um lugar degradado que está sendo requalifcado, mas também questiona o modo como as famílias foram retiradas das suas casas.

Humberto Carrão visita o passado histórico escravocrata do Brasil para relacionar o que aconteceu com a desocupação daqueles moradores, expulsos das suas casas, com a própria forma de expulsão dos escravos. Por esse lado o roteiro, escrito por ele próprio, torna-se frágil em não conseguir estabelecer bem essa ligação, além de em outros momentos se perder nos devaneios da guia turística.

Cena do curta-metragem Regeneração. | Foto: Divulgação
Cena do curta-metragem Regeneração. | Foto: Divulgação

O tema é parecido na trama do curta-metragem baiano Ótimo Amarelo (2016), dirigido por Marcus Curvelo, que relaciona a passagem frustrada do jogador Bebeto pelo seu time do coração, Vitória, com as obras no bairro do Rio Vermelho. Curvelo apresenta as modificações como um aspecto negativo cujo clímax é atingido por um discurso de inauguração inflamado do prefeito ACM Neto.

O Rio Vermelho, assim como toda a cidade, estava abandonado. Uma obra de modernização na região era necessária, que inclusive atingiu melhor resultado do que as obras na Barra, um outro bairro de Salvador e muito próximo ao Rio Vermelho. Houve pontos negativos de ordem cultural e ambiental uma vez que a estrutura inicial do bairro não foi reaproveitada. As críticas surgem justamente disso, mas era importante que se fizesse algo para melhorar sua infraestrutura.

Cena de Ótimo Amarelo. | Foto: Divulgação
Cena de Ótimo Amarelo. | Foto: Divulgação

O que mais interessa em Ótimo Amarelo, no entanto, são as mensagens de voz deixadas pelo protagonista aos seus amigos enquanto este anda pelo bairro os aguardando para uma cerveja. Rende bons momentos ao curta, apesar de eu não ter enxergado como sua decepção com Bebeto e com a própria cidade o levaram a se frustrar haja vista a forte presença de grupos que antes não frequentavam o Rio Vermelho e agora o utilizam com maior frequência.

Olhar estrangeiro

Um dos filmes mais aguardados por mim para assistir nesse festival foi o longa-metragem A Cidade Onde Envelheço, muito aplaudido em exibições ao longo do ano aqui no Brasil e também lá fora. Dirigido por Marília Rocha, o filme traz o olhar de uma portuguesa recém-chegada ao Brasil para morar na cidade de Belo Horizonte. Teresa (Elizabete Francisca Santos) deixou Lisboa para morar em BH no apartamento de Francisca (Francisca Manuel), uma amiga antiga que já mora na cidade há pouco mais de um ano.

No primeiro momento, Francisca fica receosa ao ter a companhia de Teresa em seu apartamento (ainda mais porque Teresa não sabe quando pretende se mudar). Há momentos de desconforto entre as duas, talvez por alguma situação do passado de ambas ou por simplesmente revelar o quanto Francisca se sente incomoda pela perda da sua liberdade em seu próprio apartamento.

Cena do filme A Cidade Onde Envelheço. | Foto: Divulgação
Cena do filme A Cidade Onde Envelheço. | Foto: Divulgação

Mas a situação muda e uma bela amizade é construída. O convívio entre elas acaba se traduzindo em uma união contra a solidão, a saudade de casa e as diferenças que encontram entre o país de origem delas e o Brasil. A diretora Marília Rocha faz um trabalho eficiente ao deixar a narrativa fluir com naturalidade e leveza em muitas sequências que parecem ter sido improvisadas, confiando na ação de suas protagonistas em cena.

Um bonito filme cujo final deixa um sentimento de decepção que não condiz com todas as boas passagens que A Cidade Onde Envelheço conseguiu criar. Não há sentido em colocar Teresa criando laços com um personagem que ela sequer contracenou em toda a história. Por isso A Cidade Onde Envelheço peca no final.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *