Editora é proibida de vender edição de “Minha Vida”, de Hitler, no Brasil

A editora Geração Editorial foi proibida de divulgar e comercializar o livro Minha Luta, de Adolf Hitler, que seria lançado em abril com uma abordagem crítica e comentada.

Um juiz no Rio de Janeiro expediu o mandado de busca e apreensão determinando que os exemplares ficarão sob a guarda da editora. Caso descumpra a decisão, a casa será obrigada a pagar R$ 5 mil por obra divulgada ou vendida.

Em comunicado publicado no blog da editora, o publisher Luiz Fernando Emediato, classificou a decisão judicial de incompreensível. “O livro do Hitler – sem qualquer comentário crítico – qualquer um pode ler, fazendo download gratuito pela internet. A nossa edição – com 400 páginas de comentários críticos e análises históricas – está sendo proibida de circular. Na prática, essa decisão – se prevalecer – beneficia a propaganda nazista e impede a crítica desse abominável movimento”, disse.

A editora responsável pelo livro Minha Luta, a Centauro Editora, lançou em janeiro uma versão integral da obra sem notas e nem comentários. O livro continua circulando e a editora não foi notificada pela justiça.

Escritores pedem boicote

Desde o início do ano, quando editoras brasileiras anunciaram que publicariam o livro Minha Luta, a decisão tem dividido opiniões e causado polêmicas na Internet. O texto caiu em domínio público no dia 1º de janeiro de 2016.

Um manifesto elaborado por três escritores, Richardo Lisias, Daniela Lima e Laura Erber, e a professora universitária Giovanna Dealtry, pede um boicote às edições do livro, em especial à da Geração Editorial – além de ganhar adesões depois de Gregório Duvivier e da escritora Noemi Jaffe (leia entrevista).

No manifesto, os autores criticam uma propaganda veiculada pela Geração Editora nas redes sociais (veja aqui) e pedem, ainda, que livrarias não aceitem vender os volumes. Uma das principais críticas desse grupo de intelectuais da peça era também em relação à capa do livro, “que tem uma estética de best-sellers direcionados ao público adolescente”, escreveu o grupo.

E isso pode ser visto como uma verdade: a capa brasileira estampa Hitler na frente e tem uma edição muito diferente da que é comercializada na Alemanha, com cores mais sóbrias, nenhuma foto de Hitler e sem nenhum elemento que chame atenção mais do que o outro (veja abaixo e compare).

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Grupo de intelectuais critica capas brasileiras do livro em relação às capas alemãs, que são sóbrias e sem propaganda. | Foto: Reprodução

Na Alemanha, livrarias voltaram a comercializar o livro 70 anos após prescrever seus direitos autorais. A edição foi preparada por uma equipe dirigida pelo historiador Christian Hartmann, do Instituto de História Contemporânea de Munique (IFZ). Ao apresentar o livro, o diretor do IFZ, Andreas Wirsching, disse que “a edição busca desmascarar as mentiras de Hitler e denuncia suas meias verdades que buscavam um efeito propagandístico”.

O presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, Josef Schuster, celebrou na época a publicação da edição crítica e disse que o livro pode ajudar a desmontar o mito que rodeia a biografia, chegando a afirmar também que o livro pudesse ser adotado nos colégios alemães.

Antes mesmo da decisão da justiça, as principais livrarias do Brasil (Saraiva, Cultura, Vila e Travessa) demonstravam certa preocupação em comercializar as cópias. A única que parecia garantida era justamente a da Geração Editora, que seria publicada com os comentários. Ainda assim, outras livrarias diziam que era preciso esperar pela decisão do departamento comercial, que iria analisar a obra e decidir por vendê-la tanto nos espaços físicos quanto na Internet.

Por se tratar de um livro tão polêmico, essa é uma discussão que está longe de terminar.

Crédito da Imagem: Reprodução

Vinícius Silva
Sou formado em Jornalismo e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. O vício em Filmes, Séries e nas Artes em geral me levaram à escrita.

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