Cinema

Em 'Silêncio', Scorsese reflete como a Fé e a desesperança dão sentidos à religião

Não me arrisco a dizer que Silêncio seja o filme mais pessoal do diretor Martin Scorsese. Mas com certeza entra na lista. Um projeto que ele demorou mais de vinte anos para conseguir tirar do papel e cujo tema tem tudo a ver com a sua filmografia: a relação do ser humano (e, pessoalmente, sua) com a religião e a fé.

Silêncio é um filme também que fecha um ciclo de trilogia com esse tema na carreira de Scorsese após ter feito anteriormente A Última Tentação de Cristo (1988), cujo retrato de Jesus Cristo o coloca como contraditório e imaginando um outro destino caso levasse uma vida comum, e Kundun (1997), também uma biografia que acompanha toda a educação como monge do 14º Dalai Lama. Silêncio, porém, é um filme mais maduro e doloroso quanto aos questionamentos da fé.

Baseado no romance escrito por Shusaku Endo, a história acompanha os padres jesuítas Rodrigues (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver) quando estes partem clandestinamente para o Japão para investigarem o paradeiro do Padre Ferreira (Liam Neeson), que desapareceu misteriosamente e imagina-se que ele tenha sido preso ou morto pelo regime de perseguição e violência do Inquisidor Inoue (Issei Ogata) às vilas consideradas católicas do país – indo na contramão da tradição Budista do país e cujos governos desejam manter tais tradições, sufocando a escolha de japoneses que querem seguir um outro caminho.

Silêncio é um filme bastante longo e que sofre no último ato quando parece não saber exatamente como terminar a história ou o que mostrar a seguir. No entanto, a primeira metade do filme é um denso exercício de ver cristãos sendo torturados porque quiseram manter a crença e a fé de que acreditam em Deus, enquanto outros precisam esconder aquilo que pensam para não serem mortos. A esperança de muitos deles é retomada justamente com a chegada dos Padres Rodrigues e Garupe. E mesmo sabendo da necessidade do filme de mostrar a crueldade do regime de Inoue, Scorsese poderia também ser menos violento em algumas sequências.

Martin Scorsese (que também assina o roteiro com Jay Cocks) filma sequências de extremo sofrimento, quando água fervendo é cuidadosamente jogada no corpo dos fiéis, pessoas sendo queimadas vivas, sessões de tortura que os deixam amarrados em uma cruz para serem engolidos pelo mar e morrerem lentamente afogados. Por isso questiono a necessidade de mostrar tanta violência, mesmo entendendo a necessidade do filme em exibí-las porque precisa criar o choque que é ver pessoas sendo perseguidas apenas por causa daquilo que acreditam – uma condição que não mudou e que hoje é motivo de conflitos em diversas regiões do mundo.  Como grande parte dessas vilas japonesas vivem na mais imensa pobreza, a Fé, a esperança de Salvação e do encontro com o Paraíso os tornam corajosos (e não orgulhosos) de aceitarem destinos tão cruéis.

Tecnicamente, Silêncio é um filme dirigido e pensado de maneira muito artesanal. A fotografia de Rodrigo Prieto e o design de produção de Dante Ferretti são exemplos claros disso, usando muito o que eles tinham à disposição da luz natural das locações ou da forma humilde com a qual esses japoneses viviam. O modo contemplativo e lento da narrativa empregada pela câmera de Scorsese lembra Francis Ford Coppola em Apocalipse Now, ou ainda Terrence Malick de Além da Linha Vermelha. Como nesses filmes citados, Silêncio é bem construído e acertadamente adota um ritmo que reafirma a necessidade de investigar o sentido que cada um desses personagens dá às suas próprias vidas.

Assista o trailer:

Silêncio (Silence, 2016)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Jay Cocks e Martin Scorsese
Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Issei Ogata, Yoshi Oida e Shin’ya Tsukamoto
Duração: 161 minutos

Um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *