Nos anúncios dos indicados ao Oscar na última quinta-feira (14), a animação brasileira O Menino e o Mundo foi uma das grandes surpresas, sendo indicada na mesma categoria de Divertida Mente, Anomalisa, Quando Marnie Estava Lá e Shaun: O Carneiro. Mas o filme de Alê Abreu não recebeu essa indicação por acaso. Vencedor do Festival Annecy, que é considerado como o Festival de Cannes para a animação, O Menino e o Mundo ganhou nas categorias de público e crítica, além de estar fazendo uma boa carreira internacional já colecionando 45 prêmios em diversos países.

O Menino e o Mundo narra a viagem de um menino que mora no interior com o seu pai e a sua mãe. Em um determinado dia, ele vê o seu pai indo embora. Sem entender muito bem o motivo, ele parte em busca do seu pai e cai em um mundo caótico e hostil, mas ao mesmo tempo fantástico e com seres estranhos. O filme é uma pintura dos problemas enfrentados pelo mundo, através do olhar ingênuo de uma criança.

Nessa entrevista (que também pode ser ouvida aqui) o diretor Alê Abreu conta quais foram as principais influências que ele teve para contar essa história e como ele recebeu a notícia da indicação que O Menino e o Mundo está concorrendo ao Oscar. Além disso, Alê comenta sobre o atual momento da animação no Brasil.

Confira:

Trívia Mail: Como você recebeu a notícia de que O Menino e o Mundo tinha sido indicado ao Oscar de Melhor Animação e qual foi a sensação?

Alé Abreu: Uma baita surpresa. Ninguém esperava. Existia uma chance muito pequena diante da força dos filmes que têm campanhas fortíssimas para estarem ali entre os cinco. Uma chance de um filme de arte de um país emergente na animação. Nunca tivemos um representante latino-americano na história do Oscar indicado como melhor longa-metragem animado. Eu ainda não tenho hoje a noção exata. E talvez eu nunca tenha do que isso representa. O esforço que eu quero nos próximos dias é tentar ter um pouco de paz e tranquilidade para olhar isso com distanciamento.

TM: Quanto tempo levou para O Menino e o Mundo ficar pronto?

AA: Eu diria que foram uns quatro anos. Tivemos um primeiro momento que demorou uns três anos, mas depois pensando no roteiro, diria que foram quatro anos para finalizar tudo.

TM: Quais foram as suas influências nesse trabalho?

AA: Foram muitas e vieram de diversas fontes, tanto musicais e gráficas, quanto filosóficas que vão formando uma bagagem que a gente carrega na hora de fazer um filme. Uma influência que tive de um cineasta durante o processo de O Menino e o Mundo foi me aprofundar em conhecer melhor o trabalho do diretor russo Andrei Tarkovsky. No meio da animação, diria que as influências do Hayao Miyazaki e Isao Takahata são uma referência importante, mas não vejo assim uma relação muito de proximidade não. Nas artes plásticas, o Miró e o Pouplin porque ambos tem um pé na liberdade da criança e eles se influenciam por esse universo infantil.

TM: Uma das principais características do filme é o seu aspecto visual. Os traços são aparentemente simples, mas muito bonito. Como você se aprofundou nessa estética?

AA: Acho que o filme nasceu com esse compromisso, e penso que nenhum outro, de estar próximo do personagem e de estar ali observando as coisas acontecerem através do olhar dessa criança. O filme é o ponto de vista desse menino ingênuo que sai do interior em busca do pai. Temos um histórico desse tema na história da América Latina, ele é recorrente. O meu trabalho como diretor foi caminhar ao lado desse menino e construir essa história que olha para o mundo globalizado e futurista, mas que ao mesmo tempo é um mundo que não está aberto para todo mundo. É um mundo caótico, que tem divisas geográficas para algumas pessoas. Então, é um mundo que funciona como objeto de uma máquina muito maior da qual me parece que os homens não têm qualquer controle. Por isso a minha ideia foi colocar um menino que veio às margens desse mundo e olhando para ele com essa pureza infantil.

O meu trabalho como diretor foi caminhar ao lado desse menino e construir essa história que olha para o mundo globalizado e futurista, mas que ao mesmo tempo é um mundo que não está aberto para todo mundo.

Alê Abreu

TM: O Menino e o Mundo venceu ano passado o Festival de Annecy, na França, e no ano anterior o vencedor foi Uma História de Amor e Fúria, do Luíz Bolognesi. Por que a animação brasileira está tão em alta?

AA: É um esforço de um trabalho de muitas gerações de animadores querendo fazer os seus filmes, querendo descobrir o jeito brasileiro de fazer animação e não nos cedendo a outras produções internacionais com braços baratos. Há muitos países cujos estúdios de animação produzem basicamente o trabalho que é criado fora. A gente sempre quis fazer os nossos filmes. E eu acho que o que a gente vive hoje é um resultado dessa busca.

Animação "O Menino e o Mundo" já venceu mais de 40 prêmios. (Foto: Divulgação)
Animação “O Menino e o Mundo” já venceu mais de 40 prêmios. (Foto: Divulgação)

TM: O Brasil tem os seus problemas de financiamento e de investimento no cinema – assim como em outras áreas. É um empecilho para fazer animação no país?

AA: Não. O Brasil, diferentemente de outros países, tem um investimento poderosíssimo no cinema. Tem países que não têm leis de incentivo e cuja cinematografia é morta. O Brasil tem um mecanismo de cinema que no ano passado foi um dos maiores da nossa história. Acho que a animação pegou um pouco de carona nesses investimentos e cresceu com isso. Hoje em dia nós temos editais específicos para animação. Agora, a animação, com este momento que estamos vivendo, merece muito mais esse olhar e mais investimentos específicos para animação.

TM: Agora que O Menino e o Mundo recebeu essa indicação, quais as suas expectativas para o que vem em seguida?

AA: Minha expectativa é que ele volte em cartaz no Brasil porque tem muita gente querendo ver o filme. E que ele continue fazendo uma carreira internacional brilhante, que é o que ele tem feito. Independente de Oscar, ele foi vendido para 90 países, sendo a metade deles para cinema. Ele vai estrear no Japão nessa semana e já abriu em 100 salas nos Estados Unidos. Então, não é pouco. É uma carreira histórica. Essa indicação veio coroar esse filme que surpreendeu a gente.

Crédito da Imagem: Reprodução

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