Cinema

ENTREVISTA: Felipe Bragança fala sobre expectativa de exibir seu primeiro filme em Sundance

Se nós, meros cinéfilos e viciados em festivais, já ficamos entusiasmados quando vemos um filme brasileiro participando de um festival importante, imagina como fica o diretor e responsável pela obra. Quando soubemos da presença de um longa nacional no importante Festival de Sundance, a maior e principal vitrine para revelar novos cineastas e novas produções do meio independente, logo ficamos curiosos para conhecer o filme e o cineasta.

Selecionado para a Mostra Competitiva Internacional de Sundance, que acontece entre os dias 19 e 29 de janeiro, Não Devore Meu Coração é o primeiro longa-metragem dirigido por Felipe Bragança (responsável pelos premiados A Alegria e A Fuga da Mulher-Gorila). A história é ambientada no Centro-Oeste brasileiro e foi escrita pelo próprio diretor, que se baseou nos contos de Joca Reiners Terron para contar a história de amor entre dois jovens em meio às disputas territoriais entre Brasil e Paraguai.

O roteiro foi desenvolvido durante os seis meses os quais Felipe passou na Alemanha participando do Berliner Kunstler Programm, desenvolvido pelo ministério das Relações Exteriores do país que convida artistas e cineastas para viverem em Berlin por um período de 6 a 12 meses. “Artistas que eu admiro muito como Karim Ainouz, Claire Denis e Jim Jarmusch já fizeram este programa que existe desde os anos 60. Entre 2013 e 2014, eu vivi na capital alemã e lá escrevi o roteiro do filme”, conta ele.

Selecionado também para a Mostra Geração no Festival de Berlim, que acontece de 9 a 19 de fevereiro, nessa entrevista que fizemos por e-mail ele conta um pouco mais sobre o filme, os desafios de filmar o seu primeiro longa-metragem e como foi trabalhar com Cauã Raymond e Ney Matogrosso. Leia abaixo:

Trívia Mail: Não Devore Meu Coração é o seu primeiro longa-metragem e que já será exibido em um festival importante e conhecido por revelar novos cineastas e novas histórias. Quais suas expectativas para o Sundance esse ano e a exibição do seu primeiro longa-metragem por lá?

Felipe Bragança: Este é o meu primeiro longa-solo. Antes, eu co-dirigi com Marina Meliande o longa de baixo orçamento A Alegria, que esteve em Cannes 2010, na Quinzena dos Realizadores. Sunance é o maior festival de cinema no mundo focado em novos nomes e em cinema independente. Estamos animados em poder levar um objeto de tanto amor e trabalho ao mundo em um lugar de tanto prestígio e repercussão internacional.

Trívia Mail: Por ser o seu primeiro filme solo, quais foram os principais desafios e mudanças que você sentiu durante o processo de filmagem entre filmar um longa-metragem e um curta-metragem?

Bragança: O nível de concentração e entrega para se fazer um longa metragem, dirigindo sozinho, foi muito mais intenso. O filme tem a particularidade de ter um elenco grande, com algumas cenas de ação e com muitos atores e não-atores em cena ao mesmo tempo. Isso me exigiu uma entrega de alma e física como nunca antes. Isso foi ao mesmo tempo desafiador e apaixonante.

Trívia Mail: Conte-nos um pouco sobre o filme e como surgiu esse roteiro, que também foi escrito por você.

Bragança: O roteiro surgiu da leitura de alguns contos de Joca Reiners Terron que estão presentes em seu lindo livro Curva de Rio Sujo, cujas histórias se passam quase todas na fronteira com Brasil e Paraguai. Dois contos em particular me chamaram atenção: um contava a história de um amor idílico entre um jovem brasileiro e uma menina paraguaia. O outro falava de uma gangue de motoqueiros locais. Eu misturei as premissas desses dois contos e escrevi o roteiro, que também foi muito influenciado pelas viagens que fiz para a região ao longo de 4 anos de pesquisa para fazer o filme.

Trívia Mail: A turbulência na fronteira entre Brasil e Paraguai é motivo de muitos estudos e fascínio de alguns diretores. A cineasta Kathryn Bigelow tem o plano de filmar um longa-metragem também na região e quando anunciou o projeto o governo local do Paraguai fez duras críticas. Qual foi a sua abordagem e como você fez para encarar esse projeto?

Bragança: Meu filme é um poema visual sobre amor e guerra. E fala muito das reminiscências culturais dos conflitos do passado, tentando encontrar ecos no presente – dos mais evidentes aos mais escondidos. A proposta é falar da violência da região como um processo histórico e simbólico que está em todas as relações: da disputa por terras às disputas amorosas. Eu conto uma história de amor sonhadora que luta e atravessa uma terra marcada por conflitos e memórias muito doloridas para nosso país e o nosso continente.

Trívia Mail: O que te chamou mais atenção nos contos de Joca Reiners Terron que o levasse a se inspirar em realizar essa adaptação?

Bragança: Joca Terron tem a capacidade de mais do que propor narrativas em seus contos, propor uma atmosfera muito densa para ser compartilhada com o leitor. Foi nessa atmosfera que eu me instalei para criar o filme e escrever o roteiro. A partir desse imaginário rico que ele traz: que mistura poesia onírica e crueza visual.

Trívia Mail: No elenco você trabalha com Cauã Raymond e tem inclusive uma participação de Ney Matogrosso. Conte-nos um pouco sobre essa experiência com o elenco e em como foi essa preparação para chegar até esses nomes.

Bragança: Convidei o Cauã Reymond para fazer parte do elenco há mais de 4 anos. Assim que comecei a escrever o personagem dele no filme, Fernando, tive a certeza de que ele era o nome certo – pela energia, pelo tom, pelo vigor e delicadeza misturados em uma só pessoa. Com o Ney, o que quis fazer foi uma homenagem a essa figura maravilhosa que nasceu na mesma cidade onde filmamos, Bela Vista-MS. Propus a ele fazer um pequeno papel, com algumas cenas, onde ele vive um homem que de alguma forma representa tudo aquilo que ele deixou para trás quando deixou a região e se tornou uma estrela nacional e internacional nos anos 60, rompendo barreiras e preconceitos.

Não Devore o Meu Coração deve chegar aos cinemas brasileiros no segundo semestre de 2017. Acompanhe a nossa cobertura do Festival de Sundance através desse link.

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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