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Final de ‘Halt and Catch Fire’: a ideia que norteou uma série à sua grandeza

A série Halt and Catch Fire sempre viveu perigosamente. Aclamada pelos críticos, mas sem nunca conseguir alcançar um grande público. E mesmo flertando com o cancelamento, a emissora AMC sempre dava chance para a série continuar contando sua história. E essa foi a decisão mais acertada que o canal fez. Se Halt and Catch Fire fosse cancelada talvez perdêssemos a oportunidade de ver a verdadeira obra-prima que a série é. E o series finale, exibido pelo canal há alguns dias, é uma aula de como se despedir da TV.

Porque é comum que finais de série sejam decepcionantes, principalmente aquelas que duram oito ou nove temporadas. Halt and Catch Fire precisou de quatro anos para sair do nascimento dos computadores pessoais para o boom da Internet. Nesse intervalo, Halt and Catch Fire trouxe muita nostalgia. Como ver logo no primeiro episódio da 1ª temporada um arcade e terminar a série vendo o PlayStation 1, ou a criação do Netscape, o início do Yahoo! e toda a revolução trazida com a World Wide Web e a corrida para desbravá-la. Enquanto isso, os personagens da série estavam sempre atrás de uma ideia para fazer parte de todas essas novidades que foram aparecendo.

É sempre isso que move os cientistas da computação no Vale do Silício. Quando Cameron Howe (Mackenzie Davis), Gordon Clark (Scott McNairy), Donna Clark (Kerry Bishé) e Joe MacMillan (Lee Pace) se mudam do Texas para a região de São Francisco, é essa busca pelo reconhecimento de uma ideia que os levam até lá. Quando assistimos aos dois últimos episódios, exibidos sem intervalos, temos a real sensação do quanto eles experimentaram de tudo, passando por diversos recomeços e finais de ciclo que os colocavam à todo instante em busca por um significado, seja profissionalmente ou pessoalmente.

Com uma referência clara ao episódio “Piloto”, quando Joe inicia a sua aula dizendo “Deixe-me fazer uma pergunta para vocês” (a mesma que ele diz quando chega na Cardiff Eletric questionando o quanto as pessoas dali estão familiarizadas com o computador pessoal), Halt and Catch Fire encerra com a mesma provocação não poderia terminar de maneira mais perfeita. Porque se daquela vez Joe oferece a pergunta que acaba norteando um pouco da trama da série, dessa vez o seu questionamento fica vago e sem resposta. Afinal, qual é a pergunta que ele pensa em fazer? E qual é a ideia que Donna teve que a fará retomar sua parceria com Cameron e abrir juntas uma nova empresa? A esse ponto, não é isso que mais importa. A ideia sempre vai estar lá para esses personagens porque é o que eles estão buscando.

Porém, no final da temporada, Halt and Catch Fire está mais interessado em suas curvas pessoais do que necessariamente no que eles pretendem criar. Só isso isso já tornaria o fim da série digno de ser aplaudido e prestigiado. Mas Halt and Catch Fire ainda guarda um momento de imensa sensibilidade ao conseguir nos emocionar com o discurso de Donna, em seu evento feito apenas para mulheres que trabalham no Vale do Silício. É uma mensagem poderosa dada pela série e, é bom que se diga, o posicionamento de respeito e a favor das mulheres, cientistas e que trabalham com tecnologia, começa na segunda temporada quando Cameron e Donna se tornam as verdadeiras protagonistas da série juntamente com Gordon e Joe, com ambas vivendo suas próprias aventuras independentemente do que acontecia com eles dois (só me vem à cabeça aquela cena em que elas duas roubam uma CPU para servir de servidor extra para a Mutiny).

Foto: Divulgação/AMC

É impossível, então, não cair em lágrimas quando ela começa o discurso dizendo “Eu ganhei. E perdi”. Porque é nesse momento que refazemos todos os passos dela e de todos os personagens de Halt and Catch Fire sabendo exatamente o que ela está querendo dizer com isso e do que ele precisou abrir mão para chegar até ali. Suas decisões a levaram a ser uma poderosa empresária no Vale do Silício, mas também a perder tempo com suas filhas, passar por um divórcio e romper com sua sócia e única amiga. Mas todas essas decisões foram tomadas por ela e somente ela, sem que ninguém estivesse definindo o seu destino a não ser ela mesma.

Ambientada nos anos 80, Halt and Catch Fire passou por diversas inovações que começaram naquela década e transformaram os anos 90, seja através da revolução dos computadores pessoais, dos games online ou da navegação e descoberta de dados da World Wide Web. E vemos nossos personagens sempre correndo atrás para acompanhar as mudanças. Isso me faz refletir sobre o que acontece hoje: tudo muda tão depressa, que às vezes penso que as coisas seriam mais fáceis se não tivéssemos tantas redes sociais, tanta pressão para estar na Internet e lutar tanto para ter uma ideia que mude a nossa vida. E o que mais acontece nesse meio do caminho é nós falharmos.

Foto: Divulgação/AMC

Halt and Catch Fire prova que, enquanto se falhar tentando, há sempre espaço para se tentar mais uma vez e recomeçar até conseguir (e aí errar e tentar de novo). A ideia é importante, sim, mas nunca foi o objetivo da série desvendar o que seria essa ideia ou torná-la parte de alguma obsessão dos personagens. Eles não estavam vivendo por isso – ou sequer para isso. E nem nós. No meio de tanta inovação e termos tecnológicos que soam tão normais para alguém como eu nos meus 30 anos, mas não para gerações anteriores à minha, Halt and Catch Fire entrega uma mensagem que é pessoal e por isso atinge a todos, capaz de nos motivar e inspirar. É isso que torna Halt and Catch Fire uma das melhores séries que eu já vi na minha vida.

Assista o vídeo especial do final de Halt and Catch Fire:

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/AMC]

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