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‘Girls’: final da série coloca personagens prontas para aceitarem a vida adulta

Após seis temporadas, a HBO exibiu o último episódio de Girls. Ao longo desse tempo, entre prêmios, reconhecimento do público e muitas indicações, a série criada pela desconhecida Lena Dunham e produzida por Judd Apatow, quebrou paradigmas em seu gênero. A imprensa há seis anos colocava o programa como “a versão realista e crua de Sex and the City”. Mas é muito mais que isso, certo? Girls foi ousada não apenas pelas inúmeras cenas de sexo e muita nudez (isso se vê em qualquer série da HBO ou de outro canal fechado americano), mas sim por querer dialogar com a sua geração – tendo Hannah como porta-voz.

Aquela garota sonhadora que conhecemos no início da 1ª temporada cresce, se transforma em mulher e vê muitos daqueles sonhos se partirem porque a vida é sempre mais complicada do que pensamos ser, dando voltas e idas e vindas pelas quais não esperamos (ou sequer pedimos). Entra tudo nessa mistura de frustrações: relacionamentos que fracassam, amizades que se perdem e responsabilidades que aparecem quando não estamos preparados. Girls foi uma série sobre o que é crescer – mesmo que aquelas personagens ali retratadas tenham tido uma vida tão mais perturbada e confusa do que a maioria de nós.

[ATENÇÃO: SPOILERS A PARTIR DAQUI]

Após o ótimo episódio “Goodbye Tour”, quando Girls reúne pela última vez todos os personagens e os obriga a resolverem suas questões ali durante a festa de noivado de Shoshanna, “Latching” é um capítulo ambientado seis meses após aquilo e de Marnie ter aparecido dizendo que ajudaria Hannah a cuidar do bebê. Os conflitos estão centrados em Hannah, sua dificuldade de amamentar o filho (referência ao título dessa series finale) e não saber como lidar com a criança, além da própria relação de altos e baixos entre ela e Marnie agora que estão morando juntas.

Foto: Divulgação/HBO

O que me fez gostar de “Latching”, talvez não na mesma proporção de “Goodbye Tour” (pra mim, um dos melhores de toda a série), é ver que Girls realmente não tentou ir atrás de ser “a voz da geração” que tanto queria. Se distanciando disso, Girls foi se tornando humana a cada temporada. Neste último ano há dois momentos particularmente dolorosos e igualmente humanos: Jessa fazendo sexo com um estranho no bar como uma punição por tudo que estava passando (ou foi puro senso de liberdade mesmo) e a última conversa entre Hannah e Adam quando os dois percebem que não conseguirão cumprir o interesse de estarem juntos pelo bebê.

Ao contrário desses momentos, Girls exibiu um final menos caótico e até engraçado em certas passagens (quando Hannah diz ao seu filho Groover que ele não foi o único a ter rejeitado seu peito é uma piada ótima para quebrar o ritmo e a seriedade daquela sequência). É um episódio o qual mostra que Hannah precisa finalmente encarar a realidade da sua vida. Por isso a presença da sua mãe, Loreen, é uma peça fundamental desse capítulo. Quem melhor para nos dar esse choque do que a nossa própria mãe? Ao questionar uma desconhecida na rua que está chorando e fugindo apenas porque a mãe lhe disse que ela só poderia sair se antes fizesse o dever, Hannah oferece a ela uma resposta que a garota ainda não entende, mas que faz todo sentido porque aquela mesma garota um dia já foi a própria Hannah.

Foto: Divulgação/HBO

Hannah pode ter deixado de lado a tentativa de ser a voz de uma geração que hoje é conhecida como Milleanials, desse grupo de pessoas que pensa e se preocupa apenas consigo mesmo. Ser mãe significa para Hannah deixar de lado o egoísmo de achar que pode desaparecer quando quiser ou por não conseguir lidar com as dificuldades que aparecem. Ser mãe é pensar cada vez menos nela mesma e isso está na essência desse final de Girls. Por isso o episódio se encaixa tão bem no universo que a série construiu, demonstrando que suas personagens estão agora prontas para amadurecerem (ou para serem adultas) e depositarem energia no que de fato querem ao invés de gastá-la em algo (ou alguém) que não oferecerá nada em troca. O silêncio e a voz tranquila de Hannah enquanto ela amamenta o seu filho quando os créditos começam a subir é uma boa metáfora que anuncia a tranquilidade de aceitar os novos desafios dessa vida adulta.

[Crédito da Imagem de Capa: Divulgação/HBO]

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