‘Homeland’ termina com um excelente recomeço

Quando a emissora a cabo americana Showtime renovou Homeland por três anos em 2016, estava claro que o objetivo era dar tempo para os roteiristas prepararem a série para um desfecho. Após anos se reinventando desde que a narrativa envolvendo Brody e Carrie foi encerrada, Homeland se transformou em um bom exemplar do gênero de espionagem ao saber refletir as crises e implicações geopolíticas que viviam (e vivem) moldando o mundo constantemente (quase que prevendo algumas crises, diga-se).

Intitulado “Prisoners of War”, em uma clara referência ao livro israelense no qual a série se baseou, o primeiro passo dado por Homeland no episódio final foi traçar um paralelo entre as histórias de Brody e Carrie. No vídeo que abre o capítulo, Brody explica para a sua família o por que dele ter traído o seu país. A narrativa de Carrie se entrelaça a de Brody porque ela mesma se encontra em um dilema: trair Saul e os Estados Unidos para evitar um conflito com o Paquistão e favorecer a Rússia? Ou fazer vista grossa, dar uma banana para os russos, proteger os agentes envolvidos e deixar o país começar uma nova guerra?

Isso leva a série a uma tensão angustiante e deixa o espectador apreensivo. Muito desse sentimento é despertado em razão da atuação de Claire Danes, que até o último momento consegue convencer ao manter a imprevisibilidade das suas decisões. Além dela, Mandy Patinkin é outro que se supera, principalmente na sequência em que Saul e Carrie discutem sobre o que ela está prestes a fazer. E em meio a esse dilema, é possível fazer também um outro paralelo: entre Carrie, Edward Snowden e Chelsea Manning.

Em comum entre eles está o fato de terem “traído” os EUA. Chelsea Manning, ex-analista militar, foi responsável pelo maior vazamento de segredos dos Estados Unidos ao Wikileaks de operações militares no Iraque, enquanto que Edward Snowden fugiu dos EUA depois de divulgar que a Agência Nacional de Segurança (NSA) realizava uma ampla espionagem de pessoas e governos. No beco sem saída no qual Carrie se meteu, a sua decisão de desertar é vista em Homeland como o seu último ato de dedicação aos EUA, pois está deixando tudo para trás para evitar que o país se envolva em mais uma guerra.

É aí que o final de Homeland mais encanta. Nunca me passou pela cabeça que a série teria um desfecho feliz, com Carrie sentada com a filha na varanda de casa observando o tempo. O final que Homeland conseguiu criar é elaborado, surpreendente e coloca Carrie de volta ao tabuleiro do jogo de espionagem, que ela nunca quis deixar para trás. Mesmo com todas as condições instáveis em consequência do seu transtorno bipolar (que a série não tratou no final).

A poética cena filmada pela diretora Lesli Linka Glatter nos últimos momentos da série, com Carrie sorrindo e curtindo uma noite de jazz em uma casa de espetáculos em Moscou enquanto Saul é surpreendido por uma mensagem sua, foi o “final feliz” no universo de Homeland. Eles aceitam que não é possível deixar o jogo para trás e ao mesmo tempo estão satisfeitos onde estão. Não consigo não pensar que o final renderia uma continuação. Mas é melhor aproveitar este e deixar Homeland descansar.

Vinícius Silva
Sou formado em Jornalismo e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. O vício em Filmes, Séries e nas Artes em geral me levaram à escrita.

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