Inesquecíveis 001 – Casablanca (1942)

A partir de hoje o blog Goodfellas estreia a coluna Inesquecíveis, onde publicarei textos quinzenalmente sobre filmes clássicos que assisto Alguns eu estarei assistindo pela primeira vez. Outros trata-se de uma revisita. É o caso de Casablanca (1942), filme dirigido por Michael Curtiz, roteirizado por Julius e Philip Epstein e também Howard Koch. A primeira coisa que se percebe é que Casablanca continua sendo um filme atual mesmo lançado há mais de 70 anos.

Alguns dirão que é por contar uma linda história de amor. Sim, a trajetória de Rick Blaine (Humphrey Bogart) e Ilsa Lund (Ingrid Bergman) é emocionante em todos os aspectos. Quantos romances levados para a tela grande não se basearam no que ambos viveram? Um amor arrebatador enquanto moravam em Paris no auge da Segunda Guerra Mundial vivenciando a iminente invasão germânica na cidade luz.

Em poucos dias Rick e Ilsa experimentaram uma intensa transformação causada por todo esse sentimento de amor que, para Rick, era uma verdadeira incógnita já que ele nunca havia sentido algo parecido antes. Para Ilsa, passando por um luto por ter acreditado na perda do marido, o lendário Victor Laszlo (Paul Henreid, símbolo da resistência francesa na guerra), ela se entrega por completo. Ambos vivem esse intenso amor até se separarem uma vez que Rick precisava fugir para Marselha já que seu nome estava na lista negra dos nazistas.

É nesse contexto que a cidade de Casablanca surge como um destino importante para as pessoas que deixavam a França para se refugiar neste pequeno lugar no Marrocos. Chegar até lá significava ter esperança para um dia poder ir para os Estados Unidos, que naquele momento havia acabado de entrar na Segunda Guerra Mundial após o ataque a Pearl Harbor.

Nesta cidade, Rick gerencia o “Café Americain”, um reduto frequentado por praticamente todos no lugar. Eis então que o destino (somente ele) quis que ele e Ilsa se reencontrassem. Ela fugindo com o marido Laslo, que não estava morto e tenta sobreviver neste refúgio enquanto busca inspirar também mais pessoas para a sua causa. A partir do encontro entre os dois, Casablanca se transforma em um filme absolutamente delicioso, com um texto que capta a essência dos personagens e do momento que estão vivendo, além de nos entregar cenas que se tornaram inesquecíveis.

A primeira delas é quando Ilsa entra no Café Americain e logo é reconhecida pelo pianista Sam (Dooley Wilson), um amigo antigo de Rick desde os tempos de Paris. Imediatamente ela pede para Sam tocar “As Time Goes By”, cantada por vozes importantes como a de Frank Sinatra mas eternizada para sempre por Casablanca, já que a canção é o tema do amor do casal. E como é cantado em uma parte da letra, “no matter what the future brings as time goes by”, que tem tudo a ver com o desfecho da história tanto quanto na passagem “it’s still the same old story/ a fight for love and glory”.

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Por causa de “As Time Goes By”, o compositor da trilha sonora de Casablanca, Max Steiner (responsável também pela música de E o Vento Levou) precisou adaptar durante as filmagens as suas composições em cima da canção e também do hino da França, La Marseillaise, um símbolo da resistência francesa à invasão germânica entoada em uma sequência inesquecível em Casablanca quando todos dentro do Café Americain começam a cantá-la para abafar os cânticos nazistas.

Outro elemebto que também impressiona em Casablanca é que tanto o diretor Michael Curtiz quanto o time de roteiristas economizaram tempo ao contar essa história. Porque Casablanca não mostra muito os perigos que aquelas pessoas estão passando (apesar de sabermos que há uma guerra em curso e que mudanças iminentes podem transformar a vida de cada um ali). Mesmo assim, vemos os personagens tentando continuar vivendo e frequentando um lugar que serve como um escapismo da realidade. Assim, Curtiz é muito habilidoso em dar o senso de urgência necessário tanto pelo contexto da realidade, que está desmoronando, quanto pelo amor de Rick e Ilsa, que começou e terminou abruptamente.

O reencontro entre eles não serve para eles reeditarem o romance, mas para resolverem o que ficou incompleto quando eles se apaixonaram e viveram da melhor forma que puderam o amor juntos. E isso é muito bonito porque os melhores diálogos de Casablanca são exatamente sobre isso, emprestando um tom de honestidade absurda ao filme (e ao relacionamento entre eles).

Por isso não há um tom de tristeza ao final porque Casablanca não me deixou desejar por um desfecho em que dos estariam juntos e viveriam felizes para sempre. O que Rick fez por Ilsa é uma enorme demonstração do seu amor. E mesmo que ele tenha visto a mulher da sua vida partindo, Rick fica com o coração calmo e a consciência tranquila de que ela estaria em paz e bem, ganhando o “começo de uma grande amizade” ao final.

Ter visto novamente Casablanca me fez ter uma visão muito diferente da que eu tive pela primeira vez. Se antes eu conseguia pensar apenas na história de amor que o filme retrata, hoje penso nisso e muito mais na crise de imigrantes que o filme aborda e que está em perfeito acordo com o que estamos testemunhando hoje. É por isso que Casablanca continua sendo um filme atual e com uma mensagem de esperança importante para não deixarmos de acreditar no mundo – e muito menos nas pessoas.

Ouça “As Time Goes By”:

Vinícius Silva
Sou formado em Jornalismo e mestre em Gerenciamento de Negócios Internacionais. O vício em Filmes, Séries e nas Artes em geral me levaram à escrita.

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