Recontada em diversos formatos, a história de amor de Romeu e Julieta é uma das mais conhecidas, e também trágicas, contadas por William Shakespeare. Inúmeras produções ao longo do tempo se basearam nela para falar de amor, da paixão arrebatadora, da dedicação e das loucuras que fazemos pelo amor – incluindo se matar por não suportar ver alguém que tanto ama partir de repente.

O musical Amor, Sublime Amor (West Side Story, 1961) recria a história de Shakespeare contada pela perspectiva do bairro Upper West Side, em Nova York, e pela disputa de dois grupos rivais que habitam aquele lugar. Primeiramente encenada na Broadway em 1957, Amor, Sublime Amor não fez qualquer sucesso (seja de público ou de crítica). No entanto, quando foi adaptado para o cinema em 1961, toda a receptividade apática da Broadway se transformou em uma enorme empolgação, deslumbrando a todos justamente pela fidelidade que a produção cinematográfica tinha com o teatro.

Vencedor de dez estatuetas do Oscar, Amor, Sublime Amor é um dos musicais mais populares que se transformou em clássico de maneira até rápida. Formado por um elenco basicamente de novatos que nunca sequer tinha trabalhado no cinema, com exceção da atriz Natalie Wood (que faria A Noviça Rebelde quatro anos depois), o filme acompanha o romance entre Tony (Richard Beymer), um novaiorquino da classe operária, e Maria (Natalie Wood), porto-riquenha que migrou para os EUA em busca de melhores oportunidades.

As famílias rivais da história de Shakespeare, Capuleto e Montecchio, abrem espaço para duas gangues que disputam espaço no bairro do Upper West Side, os Jets (brancos e novaiorquinos em sua maioria) e Sharks (todos porto-riquenhos). Com o romance entre Tony (melhor amigo do líder dos Jets) e Maria (irmã do líder dos Sharks), ambas as gangues passam a se odiar ainda mais. Mas o melhor é que em nenhum momento sentimos como se a hsitória fosse se tornar violenta (apesar das hostilidades entre os grupos), no sentido de ver sangue e pessoas se matando. Isso porque a história transcorre através de coreografias, ritmos e encanta justamente por essa leveza.

Um outro fator importante para isso acontecer é que, sendo uma produção adaptada de um musical da Broadway, a direção de Robert Wise e Jerome Robbins (os primeiros na história a dividirem o prêmio de Melhor Direção no Oscar) preserva as características teatrais da história. A sequência de uma batalha entre as duas gangues dentro de um clube de dança é um exemplo perfeito dessa relação bem-sucedida que os diretores encontraram entre o teatro e o cinema.

E mesmo que o roteiro escrito por Ernest Lehman, a partir do livro de Arthur Larents, force as situações amorosas entre Tony e Maria (e fica até difícil sentirmos empatia pelo casal), cenas como os dois cantando “Tonight”, ou nos solos “I Feel Pretty”, “Something’s Coming” e “Maria”, Amor, Sublime Amor constrói momentos românticos bonitos e inesquecíveis (a cena dos dois simulando o casamento entre eles na loja de roupas, quando ambos cantam juntos “One Hand, One Heart”, simplesmente não sai da minha cabeça).

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Todo o elenco atua de forma impecável e o fato de serem desconhecidos ajuda o espectador a não prestar tanta atenção em quem está na tela com intenção de julgá-los, mas sim no trabalho que eles desenvolvem enquanto atuam. Com tudo muito bem coreografado, transformando a mise-en-scène do cinema em um verdadeiro teatro uma vez que vemos todos os atores praticamente em cena, se movimentando e tomando suas posições para desempenharem funções específicas naquela determinada sequência.

Amor, Sublime Amor reserva sua dramaticidade para o final quando há um grande embate entre as duas gangues. Assim, duas sequências chamam inteiramente a nossa atenção. A primeira delas é quando Anita (Rita Moreno, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante) sabendo que perdeu o seu amor no duelo que acontecera entre as gangues, decide aceitar o pedido de Maria e levar um comunicado a Tony, que está escondido e sendo protegido pelos Jets. No meio do caminho, apesar de tentar fazer o certo, Anita é violentada pela gangue em uma das cenas mais fortes e perturbadoras de toda a trama. Rita Moreno, que sofreu abusos sexuais quando mais nova, não coloca apenas a sua personagem à serviço da arte, mas também se coloca e entrega uma performance realmente inesquecível.

E a outra sequência é o clímax da história embalada pelo número musical “Killed By Hate”, com Maria vendo o seu grande amor morrer em seus braços. E quando a gangue tenta começar novamente a briga, é ela quem toma as rédeas da situação. Apesar de estar sofrendo essa perda, prefere não manchar ainda mais a história de sangue. A cor vermelha do seu vestido, que aparece em outras situações do filme e evidencia o romantismo da história, se confunde com a própria tragédia e os perigos do amor entre os dois, com um desfecho trágico e triste.

Pelas músicas, pelas coregografias, pela aproximação da produção cinematográfica com a teatral, Amor, Sublime Amor é um musical no mínimo corajoso. É exagerado pelas cores (perceba a diversidade do figurino que se caracteriza por ser eclético na maior parte das cenas), das danças mas, acima de tudo, Amor, Sublime Amor é um musical que resistiu ao seu tempo. Claro, conta uma história que basicamente transformou-se em universal e me parece que poderá ser contada em qualquer outra época. Ainda assim, é um filme que vale a pena ser revisitado sempre que possível.

Assista a sequência de “One Hand, One Heart”:

1 thought on “Inesquecíveis 002 – Amor, Sublime Amor (1961)

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