Cinema

Inesquecíveis 003 – Cidadão Kane (1941)

É difícil explicar como um filme consegue ficar por tanto tempo no topo da lista dos melhores filmes de todos os tempos, como é o caso de Cidadão Kane (1941). Toda vez que assisto o filme sinto aquela imensa responsabilidade de estar vendo uma obra-prima. Foi assim quando vi Cidadão Kane pela primeira vez anos atrás quando estava começando a me tornar cinéfilo e a descobrir mais sobre as fitas antigas e clássicas do cinema. A partir da primeira vez que assisti Cidadão Kane, já o revisitei outras quatro vezes.

E como escreveu a crítica Pauline Kael, “Cidadão Kane é talvez o único filme que, quanto mais velho fica, mais novo parece”. E essa impressão está presente a cada vez que vi o filme. Se antes a história do magnata Charles Foster Kane, baseada na vida de William Randolph Hearst, era comparada à magnatas como Roberto Marinho e Rupert Murdoch, Cidadão Kane também reseva semelhanças com o recente Chatô – O Rei do Brasil e não vai demorar para outras referências aparecerem. Isso já serviria para justificar o porquê dele estar sempre no topo, apesar de simplório considerando a monumental obra que Orson Wells conseguiu realizar.

Dirigido, produzido e protagonizado por Orson Wells (ele é Charles Foster Kane e também contribui com o roteiro em parceria com Herman J. Mankiewicz, amigo pessoal do próprio William Randolph Hearst), Cidadão Kane é uma obra que redefiniu o cinema em 1941 e a própria experiência do público. A história do filme começa pela morte do magnata Charles Foster Kane que, em seu leito de morte no palácio Xanadu, diz a última palavra antes de morrer: “Rosebud” (botão de rosa). A partir de um documentário jornalístico que conta a história desse importante e poderoso americano, a última palavra dita por ele inicia uma investigação jornalística para descobrir o significado dessa palavra e desvendar a personalidade de Kane, na tentativa de torná-lo mais humano à medida que conhecemos a sua persona errática e sem escrúpulos.

Elegantemente montado por Robert Wise (diretor de A Noviça RebeldeAmor, Sublime Amor (leia aqui), O Dia Em Que a Terra Parou, só para citar alguns de seus trabalhos), vale elogiar o trabalho dele e do diretor Orson Wells ao confiarem na inteligência do público que não estava acostumado a acompanhar, naquela época, um filme cuja montagem se estabelecia ao contar a história por diversos aspectos e pontos de vista, seja através do documentário que relembra a trajetória de Kane desde a infância, quando foi “vendido” por sua mãe com o intuito de livrá-lo da violência do pai e dar algum futuro para a criança, pela investigação jornalística que conta como ele se tornou o magnata que construiu um importante conglomerado midiático, até finalmente os últimos anos da sua vida, amargurado por não ter seguido a carreira política por conta de um caso amoroso que Kane mantinha com a cantora lírica Mary Kane (Agnes Moorehead, de Soberba, 1942, dirigido também por Wells) enquanto era casado com Susan (Dorothy Comingore, de O Grande Bruto, 1944).

O mais importante é que em nenhum momento o filme torna-se confuso, contando cada trajetória de uma forma que o espectador entenda o que está se passando e compreenda a sua trajetória. Mas não foi somente nesse aspecto que Cidadão Kane transformou-se em um filme revolucionário de Orson Wells, então com apenas 25 anos. As técnicas também foram reimaginadas por ele e ganharam outros significados, principalmente ao filmar Kane sempre de baixo para cima (contra-plongée) que o colocava acima dos demais personagens, dando um aspecto de grandeza que o personagem tinha. Na sequência em que discute com o amigo Jedediah Leland, (Joseph Cotten, de Sombra de Uma Dúvida, 1943) antes de mandá-lo para uma outra sucursal do jornal New York Inquirer, dá para notar perfeitamente como a câmera se movimenta em único eixo de baixo pra cima deixando Kane tão grande que ele se aproxima do teto do cenário, enquanto Jedediah torna-se pequeno e “esmagado”.

cidadao-kane2

Um outro importante fator em Cidadão Kane é o aperfeiçoamento também da mise-en-scène. Nessa mesma cena entre ele e Jedediah, Kane caminha pelo cenário com extrema naturalidade e vai nos tirando do foco da conversa, nos levando a prestar atenção em outros elementos que acontecem em cena e que também são importantes. Outras duas sequências são importantes para entender isso: ao receber a notícia que está falindo do seu contador, Kane caminha até o fundo da sala que antes parecia pequena e, à medida que anda até a janela, a profudindade de campo fica enorme e Kane miúdo embaixo da janela em um sinal mais do que claro de que naquele momento ele estava em ruínas e fragilizado.

A outra sequência é quando Wells, economizando bastante tempo, mostra em apenas alguns minutos como o amor entre ele e Susan foi se esvaindo. No começo, Kane faz questão de elogiar a beleza da mulher e senta-se perto dela. À medida que o tempo passa, as conversas vão se tornando mais frias e grosseiras até o ponto em que eles não mais se falam e a distância de ambos sentados à mesa dá o tom do quanto eles estavam distantes um do outro porque não existia mais amor entre os dois, não existia mais felicidade.

Orson Wells trouxe todos esses aperfeiçoamentos e não foram movimentos ou técnicas jogadas apenas dentro do filme. Há um propósito para serem usadas, um significado que permeia toda a narrativa até o desfecho, quando finalmente descobrimos o significado da palavra “Rosebud”. E Orson Wells durante todo o tempo deu pistas sobre o que poderia ser, desde a infância (ele brincando com o trenó) até a cena que abre o filme quando Kane pronuncia a palavra deixa o peso de papel cair, um globo de vidro com a maquete de uma casa dentro. “Rosebud” é a marca do trenó que fica em chamas assim como todos os pertences de Kane, incinerados após a sua morte. Mas “Rosebud” é um lugar de conforto pessoal, íntimo, onde Kane se sentia seguro e sem qualquer acesso da vida conturbada e cheia de escândalos que levava.

E justifica Kane lembrar disso prestes a morrer já que “Rosebud” foi tudo o que ele perdeu enquanto nada lhe impediu de perseguir o poder e de, cada vez mais, pensar somente nele mesmo e em seus desejos. Por toda essa discussão que Cidadão Kane provoca o filme já merecia estar no topo que se encontra até hoje, mas também pela expressão da linguagem do cinema e de ter introduzido tantas técnicas que estavam apenas sendo descobertas naquele momento. É um filme importante e essencial. Uma pena que Orson Wells não conseguiu ter o mesmo controle do “corte final”, quando o diretor é responsável pela última montagem do filme, que teve em Cidadão Kane em seus outros longas. No dia do seu aniversário de 101 anos (dia 10 de outubro), Orson Wells e Cidadão Kane continuam muito vivos na memória.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *