Cinema

Inesquecíveis 005 – Os Incompreendidos (1959)

O diretor François Truffaut, que estreia na direção ao lançar Os Incompreendidos (1959) nunca gostou muito do termo Nouvelle Vague (Nova Onda), um movimento de cineastas que vinham da escola crítica Cahiers du Cinéma (além dele, nomes como Claude Chabrol, Jacques Rivette, Eric Rohmer, Jean-Luc Godard, entre outros). Truffaut dizia que na verdade a imprensa inventou esse termo apenas para colocar em perspectiva um número imenso de cineastas que estavam surgindo, algo que não acontecia com naturalidade naquele final da década de 50.

A Nouvelle Vague é caracterizada pelo diálogo com os jovens e por exibir um estado de espírito, seja de conjuntura política ou social. Além disso, havia o elo de ideias e concepções que ligavam os diretores que se conheceram na revista, impressos no artigo “Une certaine tendance du cinéma français” (leia aqui),  escrito por Truffaut e publicado na edição 31 da Cahiers du Cinéma de 1954: uma inquietação e incômodo pela forma como a produção cinematográfica francesa estava sendo conduzida.

Não por acaso o diretor coloca no centro de Os Incompreendidos Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud, uma espécie de alter-ego do diretor que usaria o mesmo ator/personagem em outros títulos de sua autoria), um aluno que não tira boas notas na escola, rebelde e que anda pela cidade de Paris matando aula aqui e ali. A relação conturbada com sua mãe Gilberte Doinel (Claire Maurier) e com seu pai adotivo Julien (Albert Rémy) o leva a cometer pequenos delitos, culminando em problemas tanto na escola quanto em casa que se acumulam à medida que ele vai se colocando em um buraco incapaz de sair.

A história de Antoine é também a trajetória de Truffaut, que anos mais tarde da exibição do filme em Cannes mostrou-se arrependido do discurso de ódio à mãe – e até de ter exposto tanto a sua vida no filme. Assim, o diretor nunca gostava de tocar no assunto pela proximidade que ele tinha com a história. Por isso é importante assistir o filme sem julgamentos, dialogando com a mesma visão sensível que Truffaut emprega no longa-metragem ao observar as ações de Antoine sem deixar a câmera se intrometer mantendo certo afastamento e discrição quando filma as andanças do seu protagonista em Paris, entrando em cinemas, roubando cartazes e máquinas de escrever para vendê-las. Truffaut respeita as decisões e agonias de Antoine e nos convida a fazer o mesmo.

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Por outro lado, François Truffaut usa também a liberdade de Antoine como ideia para aquilo que ele próprio pensara sobre o cinema (e a arte francesa) aceitar em fazer, retomando os conceitos e ideias impressos na revista Cahiers du Cinéma. O tom melancólico do filme, que pode ser sentido através da trilha sonora do compositor Jean Constantin ou por cenas como aquela em que Antoine ouve os pais brigando no quarto escuro que ele dorme em uma espécie de armário dentro da cozinha, se refletindo como um espaço claustrofóbico no qual Truffaut faz questão de mostrá-lo o quão pequeno e triste é se viver ali, transformam mesmo Os Incompreendidos em uma espécie de manifesto.

Vivendo entre a rigidez da escola, como o professor que maltrata o aluno (que o coloca em algumas humilhações), e o desleixo dos pais, mais preocupados em encher Antoine de tarefas do que perceber o que acontece de verdade com ele, Antoine passa por uma montanha-russa de situações muito felizes (principalmente aquelas na companhia do seu amigo René) e outras de pura decepção que o fazem conhecer a dureza do mundo real (sua transição entre passar a noite na prisão e terminar em um espaço de detenção juvenil).

Porém, o olhar ainda infantil e sensível de Antoine quando Truffaut o filma na cena final que encerra Os Incompreendidos sempre transmitem em mim, não importa quantas outras vezes eu reveja o filme, uma mensagem de esperança, superação e liberdade – assim como o próprio Truffaut alcançou e enxergou para a arte. É isso que levo comigo toda vez que revisito Os Incompreendidos, um filme que continuará sempre atual e vivo.

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