Inesquecíveis 007 – O Picolino (Top Hat, 1935)

Há um intervalo de oito anos entre a obra-prima do cinema mudo Metropolis (1927), do diretor alemão Fritz Lang, e a descoberta do som na arte de fazer cinema que começou ali nos final do ano de 1929. Quando teve início a década de 30, os Estados Unidos e sua população ainda assolados pela grave crise econômica do ano anterior, o estúdio MGM (influenciado pelos trabalhos da RKO, outro estúdio da época) teve a grande sacada de produzir musicais que acabaram servindo como um alento à época de vidas tão miseráveis que eram levadas por uma enorme parcela da população.

Era também uma tentativa de trazer o cinema para as massas, para um grande público, ainda que esta arte estivesse restrita a quem tinha mais dinheiro. O musical O Picolino (Top Hat, 1935) se encaixa nessa descrição. Dirigido por Mark Sandrich, o filme acompanha a história de amor entre o artista Jerry Travers (Fred Astaire) e a modelo Dale Tremont (Ginger Rose).

O Picolino foi o grande filme da dupla Astaire-Rose, ao menos em termos de bilheteria. Ao longo de suas carreiras ambos fizeram juntos dez filmes (todos pelo RKO, com exceção de Ciúme, Sinal de Amor (1949). Se em Voando para o Rio (1933) os dois eram meros coadjuvantes da atriz mexicana Dolores del Rio (sim, o Rio de Janeiro para os americanos era basicamente Buenos Aires e todos falavam espanhol), em O Picolino eles são a grande estrela e consolidam a parceria com o diretor Mark Sandrich, com quem haviam trabalhado em A Alegre Divorciada (1934) e acabariam fazendo juntos outros cinco filmes.

A história tem início com a chegada do artista Jerry Travers em Londres para um espetáculo produzido por Horace Hardwick (Edward Everett Horton, da comédia Um Camarada Ambicioso (1936). Ensaiando em seu quarto no hotel, Jerry incomoda a moça que estava no quarto embaixo do seu. Dale Tremont (Ginger Rose) não espera passar muito tempo e vai tirar satisfação com o seu vizinho sobre o barulho que ele está fazendo, a impedindo de dormir. É assim que Jerry se apaixona à primeira vista por Dale, a seguindo onde ela quer que esteja para conquistá-la e fazer até loucuras pelo seu amor.

O que impressiona “de cara” em O Picolino é a naturalidade das cenas e como elas fluem de forma suave. Ainda que o roteiro escrito por Dwight Taylor e Allan Scott tenha certas fragilidades, já que a história de amor no filme é construído a partir de inúmeros imprevistos que poderiam ser interrompidos com uma frase simples do tipo “eu não sou quem você pensa que sou”. O filme compensa isso com belos números musicais e muita dança.

meio

Ao contrário de alguns musicais até recentes dos anos 2000, os diálogos não são cantados. E não há necessidade para sê-los, nunca entendi porque os cineastas que produziram musicais nos últimos dez ou quinze anos se importavam tanto com isso. Um filme musical não quer dizer que cada fala precisa ser dita como se estivesse cantando, basta que as músicas (a trilha sonora) pontue o relacionamento dos personagens com o mundo – e, lógico, com eles mesmos. É o que ocorre, por exemplo, quando Jerry canta e dança pela primeira vez para Dale na tentativa de impressioná-la, ou ainda na belíssima cena do parque quando os dois cantam e dançam dentro de um gazebo.

Para tornar essas cenas bonitas, dançantes e alegres, o diretor Mark Sandrich acerta ao filmar os números musicais em planos abertos com basicamente nenhum corte. Isso é importante porque é como se nos colocasse sentados em uma cadeira dentro de um teatro assistindo o espetáculo protagonizado por Fred Astaire e Ginger Rose, que estão em perfeita sintonia em cena. Filmar estas sequências sem cortes deixou as cenas mais ritmadas e mostra todos os passos e movimentos que compõem a coreografia dos números musicais.

Seguindo a tendência dos musicais dos anos 30 de serem alegres, românticos e com um final feliz, O Picolino não fica atrás. Os imprevistos que tanto pontuam a narrativa ao tentar afastar o casal do amor que eles querem seguir são apenas uma forma de dizer que é preciso se esforçar para conseguir o que quer. E quando se esforça há a recompensa. O filme encerra a história com o final que o público quer ver, tomado pelo sentimento de esperança de que é possível amar, ser correspondido e viver esse amor da melhor forma possível. Uma mensagem esperançosa em tempos de desespero. Estamos falando dos anos 30, mas serve também para os anos 2000.

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