Cinema

Inesquecíveis 008 – Cinema Paradiso (1988)

É difícil segurar as lágrimas quando chega o final de Cinema Paradiso (1988), dirigido e escrito por Giuseppe Tornatore. A beleza de um beijo e da paixão entre duas pessoas é algo comovente, inspirador. E o cinema é uma arte que capta isso como nenhuma outra, ao meu ver. Então, ao vermos como Tornatore direciona o seu filme no final sob um clima nostálgico, mas também de adoração pelas imagens, Cinema Paradiso torna-se um clássico imediato e permanece ainda hoje extremamente relevante.

Isso porque tudo o que liga o filme é uma preocupação com o caminho que o próprio cinema estava trilhando, sendo substituído por outras mídias naquela época e pouco a pouco fechando as portas, tendo cada vez menos público e menos pessoas interessadas. Um alerta que nos traz aos dias que vivemos, com serviços de streaming, Internet e outras comodidades que fizeram o cinema se reinventar nos últimos anos, ao mesmo tempo que viu crescer os “multiplex” e sumir aqueles considerados “de arte”.

A história de Cinema Paradiso acompanha Salvatore (conhecido como Totó) através de vários momentos da sua vida. Na infância ele fica encantado pelos filmes ao assistí-los no cinema da pequena vila onde mora. Sua maior vontade é tornar-se amigo de Alfredo (Philippe Noiret), o projecionista do Cinema Paradiso. Aos poucos os dois começam uma linda amizade ligados pelo amor que ambos têm pelos filmes.

Giuseppe Tornatore vai costurando a sua narrativa ao mostrar os impactos que os filmes vão tendo na vida de Totó. Quando vemos o personagem pela primeira vez já adulto (interpretado por Jacques Perrin), Totó recebe a notícia da morte de Alfredo e decide que precisa voltar para a sua cidade e acompanhar o terreno. Visitamos a sua memória da sua infância e juventude a partir do momento que ele começa se lembrar tudo o que viveu e do quanto Alfredo foi importante em sua vida, servindo como um pai que ele nunca teve a oportunidade de conhecer pois este morreu combatendo na II Guerra Mundial.

É uma coincidência boa rever Cinema Paradiso na mesma semana em que assisti La La Land: Cantando Estações (leia aqui) porque ambos os filmes, guardada a importância de cada um considerando que Cinema Paradiso é um clássico da sétima arte e La La Land está apenas engatinhando nesse sentido, homenageiam o cinema e sua arte de contar histórias, de entreter, de fazer chorar, sorrir, de se apaixonar e de servir como um exemplo de manifestação social que foi em sua trajetória histórica usado até para outros meios (como a propaganda de Hitler), mas que serviu para proporcionar momentos de alegria e de escapismo de uma realidade.

Há momentos memoráveis que começam pela trilha sonora apaixonante composta por Ennio Morricone, que só de começar a tocar me remete ao filme e à uma memória afetiva pessoal da qual me recordo: morando no interior da Bahia e indo à locadora pegar filmes para conhecê-los. Não tive nenhum projecionista amigo, mas havia um rapaz na locadora chamado Luís. Era ele quem me indicava o que assistir. E eu assistia rápido, via muitos filmes em um único dia. Rapidamente eu ligava para a locadora e Luís passava em minha casa de bicicleta para pegar os filmes que eu tinha assistido e largar mais alguns para eu ver.

Toda vez que assisto Cinema Paradiso me lembro dessa história e me comovo facilmente. Se a trilha sonora de Ennio Morricone é um dos pontos altos do filme, a direção de Tornatore só pode ser caracterizada como a de um cineasta genial e completamente preocupado com a imagem. Só observar como ele salta da infância para a juventude de Totó, quando Alfredo tampa o rosto do menino e ao retirar suas mãos já o vemos como um rapaz jovem, cheio de vida e diferente daquele menino que conhecemos. Tornatore não só economiza tempo contando a história, como cria uma sequência belíssima com um forte significado. Adolescente, Totó quer viver a mesma paixão que assiste nos filmes. E a oportunidade aparece quando ele conhece Elena (Agnese Nano).

Em tempos de projeção digital e a substituição gradual do celulóide, ver a forma artesanal como os filmes eram cortados (literalmente, pois haviam cenas proibidas pela igreja e que precisavam ser tiradas) além de requerer toda atenção para arrumar o foco ou consertar o enquadramento, Cinema Paradiso é uma obra cunhada na nostalgia. Mesmo eu que não tive contato algum ao experimentar (apenas como observador) esse tipo de processo sinto a sua importância. E Cinema Paradiso faz questão de reverenciar isso, mostrando o quanto estrelas como Charles Chaplin, Brigitte Bardot, Gary Cooper e Ingrid Bergman eram tidas como próximas pelos espectadores, que viam e reviam os filmes várias e várias vezes.

Mas como bem diz Alfredo em um momento, “as histórias fora da projeção são mais difíceis, muito mais difíceis”. Totó descobre que é mesmo. Entretanto, é justamente por causa de Alfredo, que lhe diz também “eu quero ouvir os outros falando de você” ao pedir que ele deixe a cidade, que inspira Salvatore e praticamente o obriga a seguir com a sua vida fora daquela vila. Ao deixar tudo para trás e ficar 30 anos sem voltar ao lugar, tudo está diferente quando ele retorna para o enterro do seu mentor, amigo e (por que não?) pai. Mas é no final onde ele basicamente ganha a prova de amor do seu grande amigo que reside toda a maravilha que Cinema Paradiso é como filme, como história e como experiência.

Assista o trailer:

Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso, 1988)
Direção: Giuseppe Tornatore
Roteiro: Giuseppe Tornatore
Elenco: Jacques Perrin, Marco Leonardi, Salvatore Cascio, Phillipe Noiret e Agnese Nalo.
Duração: 122 minutos

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