Logo quando terminei de rever recentemente Sinfonia de Paris (1951), parti para ler um texto antigo meu que havia publicado em meu antigo blog, o Sob a Minha Lente. Relendo eu fui percebendo que tinha gostado mais do filme daquela primeira vez que eu tinha visto do que nesta segunda. Mas isso não desmerece nem um pouco esse lindo musical protagonizado por Gene Kelly (que assina também a coreografia e ganhou um Oscar especial em 1951) e dirigido por Vincent Minelli.

Com uma dupla dessa, responsável por uma penca de outros musicais produzidos pela MGM entre os anos 30 e 60, dificilmente o filme daria errado. O curioso mesmo é a semelhança da história de Sinfonia de Paris com Cantando na Chuva (1952), quando Gene Kelly dirige e estrela ao lado de Debbie Reynolds – algo que discuto logo adiante neste artigo. Sendo que em “Cantando” a trama é melhor contada, os números musicais são mais encantadores e o romance é mais emocionante.

Ambientada na Paris do pós-Segunda Guerra Mundial, a história de Sinfonia de Paris foi escrita por Alan Jay Lerner (My Fair Lady), com base na orquestra “An American in Paris” composta por George Gershwin. Acompanhamos o pintor Jerry Mulligan (Gene Kelly) e o pianista Adam Cook (Oscar Levant) vivendo em Paris e esforçando-se para conseguirem dinheiro com seus respectivos trabalhos enquanto um sonha estar em uma grande exposição e o outro reger uma enorme orquestra.

O primeiro número musical de Sinfonia de Paris mostra a rotina dos dois, vivendo em um bairro boêmio de Paris e convivendo com os outros moradores que têm certo orgulho por abrigarem os artistas. Apesar de poucas cenas terem sido gravadas em locações reais (apenas duas), vale destacar o trabalho de cenário e direção de arte do filme que recriou detalhadamente as esquinas e estreitas ruas da cidade, além da arquitetura das cafeterias e os interiores dos apartamentos onde eles vivem.

Mas aí sem dinheiro para sobreviver na cidade e sem conseguir vender quadros, Jerry conhece Milo (Nina Foch), que se apaixona por ele (e por sua arte) e decide apostar em suas pinturas organizando eventos e até alugando um espaço onde ele possa fazer seu trabalho. Mas Jerry não corresponde à moça. Na verdade, ele se apaixona por Lise Bouvier (Leslie Caron), que está em um relacionamento com Henri Baurel (Georges Guétary), grande amigo do seu colega pianista. Mas Jerry não sabe disso e a história prolonga o conflito até o final, quando fica claro que ambos estão apaixonados pela mesma mulher.

A reviravolta

Assim como em Cantando na Chuva, há um momento em Sinfonia de Paris em que tudo parece perdido para Jerry: sua carreira como pintor que tem mais chances de não decolar do que de dar certo e, principalmente, seu amor por Lise que pode não se concretizar por causa do outro relacionamento que ela mantém. Os dois protagonizam lindos momentos, como aquela dança à beira do Sena, mas nunca dá impressão de que estão indo em direção à algum lugar.

Quando Jerry perde as esperanças, ele decide corresponder ao amor de Milo da mesma forma que o seu Don Lockwood decide fazer em Cantando na Chuva quando resolve dar uma chance a Lina Lamont (Jean Hagen). Mas aí acontece uma reviravolta e ele volta para Kathy Selden (Debbie Reynolds). Sinfonia de Paris segue a mesma lógica, mas para isso realiza uma enorme sequência de música e dança de aproximadamente 17 minutos, que está tudo dentro da cabeça de Jerry, para recontar a história e acabar com um final feliz.

Há uma ingenuidade que permeia ambos os filmes, tanto Cantando na Chuva quanto Sinfonia de Paris, mas que no segundo me deixa com um sabor mais agridoce ao revê-lo. Os musicais de uma forma geral sempre tentavam terminar de forma feliz e alegre, o que era um bom sinal justamente em contraste com os difíceis tempos que o mundo vivia naquela época. Particularmente, no caso de Sinfonia de Paris, preferia ter um final que o filme caminhava para mostrar do que necessariamente um que ele demonstra desespero em ter apenas para agradar quem está assistindo.

Escolhido como o Melhor Filme de 1951 no Oscar, que na verdade deveria ter sido entregue para Uma Rua Chamado Pecado (estará em breve nesta coluna), de Elia Kazan e considerado o favorito naquele ano, Sinfonia de Paris é mais um musical grandioso produzido pela MGM em que Gene Kelly prova de vez o seu talento como coreógrafo e ator, dançando e cantando com naturalidade ao mesmo tempo que mostra criatividade ao criar números musicais maiores que exigem ensaio e sincronismo, elementos que vemos para qualquer lado da tela que olhamos.

É um musical obrigatório, ainda que ao rever tenha perdido um pouco da graciosidade que eu tinha visto quando o assisti pela primeira vez.

Sinfonia de Paris (An American in Paris, 1951)
Direção: Vincent Minelli
Roteiro: Alan Jay Lerner
Elenco: Gene Kelly, Leslie Caron, Oscar Levant, Georges Guétary e Nina Foch
Duração: 115 minutos

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