Cinema

Inesquecíveis 011 – O Homem Que Sabia Demais (1956)

Assistir qualquer filme de Alfred Hitchcock é como ter a certeza de que cada quadro ali presente ou cada cena construída ajudou a moldar a linguagem cinematográfica que outros cineastas desenvolveram ao longo do tempo. O Homem Que Sabia Demais (1956) tem uma sequência clássica: um corte de doze minutos em que Hitchcock submete o seu filme a nenhum diálogo e construindo uma tensão que vai aumentando à medida que o próprio som da orquestra se encaminhe para o clímax, tendo o Albert Hall em Londres como cenário. Só por esta cena Hitchcock deixa a sua marca como um regente do suspense como nenhum outro diretor tem.

Como filme, O Homem Que Sabia Demais não é a principal obra de Hitchcock e está muito longe de outros trabalhos infinitamente melhores – e, eu diria, até mais criativos. A história, uma refilmagem da versão britânica dirigida pelo próprio Hitchcock e lançada em 1934, acompanha o casal Benjamin (James Stewart) e Jo Conway (Doris Day) McKenna de férias no Marrocos com o filho Hank (Christopher Olsen). Mas acidentalmente o momento em família se transforma em drama quando os McKenna se veem envolvidos em uma conspiração internacional quando Hank é raptado e os dois são alvos de uma chantagem que visa completar a missão de assassinar um importante diplomata.

Logo na sequência que abre O Homem Que Sabia Demais, Hitchcock estabelece uma tensão causada pelo choque cultural (também de forma acidental Hank acaba retirando o véu usado por uma mulher sentada no ônibus), de idioma (eles não entendem árabe ou francês) e por isso se aventuram a confiar em pessoas que acabaram de conhecer. Essa é uma cena importante por dois motivos: 1) o suspense que se estabelece pelo fator imprevisível de não sabermos o que poderá acontecer em seguida; 2) como em seus outros filmes, Hitchcock não é de fazer muito mistério quanto à trama e é especialista no jogo de “pista e recompensa” ao oferecer close-ups em alguns personagens ou filmar algo que está completamente fora de cena para, momentos depois, oferecer ao espectador uma resposta para aquilo que fez.

Foto: Reprodução

Até o clímax da trama, que acontece na já citada sequência dentro do Albert Hall durante a apresentação da orquestra regida por Bernard Herrmann (também responsável pela trilha sonora), O Homem Que Sabia Demais é cheio de idas e vindas que pouco oferecem em termos de substância à trama, sendo barreiras colocadas pelo roteirista John Michael Heyes para atrasar os pais de Hank na busca de reencontrarem o filho após os acontecimentos no Marrocos – como na cena em que Ben, investigando o paradeiro do menino, vai a um endereço que ele considera certo só para saber em seguida que não conseguiria nenhuma resposta ali. Isso após se envolver em uma briga e quase ser linchado.

Inacessível ao público por décadas quando Alfred Hitchcock comprou de volta os direitos desse e outros quatro filmes para deixá-los como legado para sua filha, O Homem Que Sabia Demais esteve novamente ao alcance do público a partir de 1984 e esse fato talvez seja o motivo da sua importância para o cinema. Mas apesar de instável, Hitchcock comprova no terceiro ato do filme porque é chamado de “o mestre do suspense” ao traduzir tão bem a angústia e a impotência de seus personagens próximos de testemunharem um assassinato. Assista o trailer:

O Homem Que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much, 1956)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: John Michael Hayes
Elenco: James Stewart, Doris Day, Christopher Olsen, Brenda de Banzie, Bernard Miles e Daniel Gélin.
Duração: 120 minutos

[Crédito da Imagem de Capa: Reprodução]

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