O cineasta brasileiro Rogério Sganzerla tinha apenas 22 anos quando filmou O Bandido da Luz Vermelha (1969). É de se compreender, então, todo o experimentalismo que ele coloca nesta sua estreia. Parece que Sganzerla tenta ao máximo trazer suas influências como cinéfilo, mas que no final acaba desenvolvendo o seu próprio jeito de fazer, despreocupado com a técnica (seja narrativa ou de filmagem) e sem nenhuma aversão de deixá-lo sujo quando necessário, que mais tarde viria a ser conhecido como “cinema marginal’.

Esse gênero de filme ganhou evidência com os trabalhos de Glauber Rocha na década de 60 em filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), mas principalmente Terra em Transe (1967) pois tanto este filme de Glauber quanto o de Sganzerla estão envoltos por um clima de intensa turbulência política e grande tensão social. A diferença é que pra isso Glauber usa a fictícia cidade de Eldorado, enquanto que Sganzerla usa a realidade de São Paulo e do Brasil daquela época.

O Bandido da Luz Vermelha é uma livre adaptação baseado em fatos verídicos das ações ousadas do assaltante João Acácio Pereira da Costa (Paulo Vilaça), o tal ‘Bandido da luz vermelha’ que dá título ao filme (e que ganhou esse “apelido” por sempre usar uma lanterna vermelha em suas ações). Ele ganha fama nacional ao realizar fugas grandiosas, assaltar residências para roubar jóias e se aproveitar das mulheres de suas vítimas, além de gastar todo o dinheiro sem qualquer pudor e ter a identidade verdadeira bem escondida.

As ações são narradas por um programa de rádio (ou de TV, não sei dizer) sensacionalista que cria diversas teorias e linhas investigativas sobre os roubos cometidos que ajudam a elevar a fama do assaltante enquanto exercita a imaginação dos ouvintes/espectadores que estão ansiosos para saberem a verdadeira identidade do agressor. Além do bandido, outras manchetes também ganham destaque na imprensa como as ações confusas da polícia para encontrar o criminoso conduzidas pelo delegado Cabeção (Luiz Linhares), a corrupção do político J.B da Silva (Pagano Sobrinho) e suas promessas de campanha tão absurdas que beiram o bizarro e a prostituta Janete Jane (Helena Ignez) que, até como esperado, é responsável pela ruína de João Acácio que o leva a cometer suicídio no final.

O Bandido da Luz Vermelha, apesar de mais marginal e sujo ao não se preocupar com a forma, guarda influências extraídas dos filmes do cineasta francês Jean-Luc Godard. Como é o caso de O Demônio das Onze Horas (1965), cuja história se assemelha ao filme de Sganzerla, ao trazer um protagonista (Ferdinand Griffon, interpretado por Jean-Paul Belmondo) que usa o pragmatismo da sociedade para cometer crimes ininterruptamente ao lado de Marianne. A sequência final de O Bandido da Luz Vermelha é uma clara referência ao filme quando João Acácio comete suicídio enrolado por fios elétricos envoltos na cabeça antes de pisar numa descarga elétrica – no filme de Godard, Griffon se envolve por uma dinamite.

Mas não é só em O Demônio das Onze Horas que o filme buscou inspiração, já que João Acácio pode também ser facilmente comparado a Michel Poiccard (mais um trabalho de Godard ao lado do ator Jean-Paul Belmondo) no filme Acossado (1960), cujos delitos são cometidos em menor escala, uma vez que o seu objetivo é se esconder da polícia após matar um policial a caminho de Paris, mas cujas andanças pela cidade praticamente sem ser reconhecido desafiam a própria inteligência da corporação em não conseguir encontrá-lo mesmo estando aparentemente tão perto disso. Sganzerla usa a mesma dinâmica em O Bandido da Luz Vermelha, denunciando naquele forte clima de tensão o sistema policial quebrado e corrupto que predominavam no Brasil.

Pela ousadia, pelo tom irônico e autoral, O Bandido da Luz Vermelha pode ser considerado um marco do cinema brasileiro. Dialoga com o movimento do Cinema Novo que tanto definiu os filmes de Glauber Rocha e a própria linguagem que alguns outros cineastas brasileiros da época queriam usar, mas é ainda mais transgressor. Pode faltar eficiência e qualidade em certos momentos, mas compensa dando a urgência que a narrativa merece

Assista:

O Bandido da Luz Vermelha (idem, 1969)
Direção: Rogério Sganzerla
Roteiro: Rogério Sganzerla
Elenco: Paulo Vilaça, Helena Ignez, Pagano Sobrinho e Luiz Linhares
Duração: 92 minutos

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