Cinema

Inesquecíveis 013 – O Silêncio dos Inocentes (1991)

O Silêncio dos Inocentes entraria em algum momento na coluna Inesquecíveis deste blog. Porque eu basicamente comecei a me interessar por filmes de mistério e thriller policial com esse filme, logo quando passei a me interessar mesmo por cinema e a querer assistir as grandes obras para conhecer melhor essa história. A morte do diretor Jonathan Demme na última semana tornou essa homenagem mais urgente.

Escrito por Ted Tally (Dragão Vermelho, a continuação que não deveria acontecer de O Silêncio dos Inocentes, dirigida por Ridley Scott) a partir do romance de Thomas Harris, O Silêncio dos Inocentes é sobre Clarice Starling (Jodie Foster), cadete no FBI que deseja entrar para a Unidade de Ciência Comportamental. Talvez como um último trabalho para provar suas capacidades, ela é enviada pelo chefe Jack Crawford (Scott Glenn) para revelar o comportamento do Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), um serial killer que costumava matar e comer suas vítimas. Agora preso há oito anos num hospital psiquiátrico, isolado e sem qualquer interação, suas “habilidades” podem servir para o desfecho de uma investigação sobre um outro serial killer.

O objetivo de mandar Clarice é tentar claramente surpreender Lecter. Todas as oportunidades que Crawford teve de investigar a psiqué do criminoso para traçar um perfil de outros criminosos se mostraram inúteis. Para Clarice, é a oportunidade que ela tem de participar da investigação de um outro serial killer que está tomando conta do noticiário. Chamado de Buffalo Bill, ele já matou cinco vítimas (todas mulheres) e têm chamado atenção pela forma como a polícia encontra os corpos: em parte sem pele e quase sempre submersos na água com uma espécie rara de mariposa dentro da boca.

O trabalho de Clarice é conversar com Hannibal Lecter e arrancar alguma coisa que seja verdadeira, talvez humana, e que lhe faça chegar ao Bufallo Bill. Logo no primeiro ato do filme há o encontro entre os dois. O diretor Jonathan Demme estabelece de imediato a tensão e os cuidados de segurança que existem para chegar até ele, ressaltando o caráter perigoso daquele homem, o seu modo calculista e a maneira imprevisível que ele tem de conseguir atacar suas vítimas mesmo quando não parece haver como. No entanto, o encontro entre os dois resulta num fascínio de ambas as partes: para Clarice, aquele homem não parece em nada ser um serial killer; e para Hannibal, Clarice é alguém muito mais inteligente do que todas as visitas que ele já recebeu.

Isso nos leva a uma outra questão muito importante em O Silêncio dos Inocentes que é, inclusive, estabelecida muito antes do encontro entre os dois. O ambiente hostil que Clarice vê no hospital psiquiátrico em nada a assusta, já que o próprio fato dela ser uma mulher policial a treinou para essas situações. Jonathan Demme faz questão de repetidas vezes colocar Clarice cercada por homens, seja na sequência em que ela entra em um elevador no campo de treinamento do FBI sendo a única mulher ali dentro (o que imediatamente faz com que todos os olhares sejam disparados para ela), ou numa casa onde eles estão seguindo uma pista quando mais uma vez Clarice é aquela “outsider” que todos ficam observando, fazendo brincadeiras machistas que, no final, só resta a Clarice engolí-las e seguir em frente.


O Silêncio dos Inocentes
não é um filme com uma estética inovadora como David Fincher ficou reconhecido dirigindo filmes justamente da mesma temática e mesmo gênero. O que caracteriza a direção de Jonathan Demme é a segurança: ele passa a impressão de que sabe exatamente o que está querendo alcançar com a linguagem que ele usa e, principalmente, onde quer chegar. Sequências de suspense como a de Clarice investigando sozinha a identidade de Buffalo Bill e entrando naquele mundo singular do serial killer (que vai ficando perigoso à medida que ela vai chegando mais perto), ou quando Hannibal consegue fugir da prisão passando por um exército de policiais que o vigiavam, o diretor entende as nuances da sua história e constrói com eficiência tanto a personalidade dos seus protagonistas quanto o ambiente hostil e perigoso do qual fazem parte.

Além disso, o filme de Jonathan Demme deve ter servido também como referência para outros filmes do gênero que marcaram, principalmente, a filmografia do cineasta David Fincher quando ele realizou Zodíaco (2007) e Seven – Os Sete Crimes Capitais (1994). Quanto à Demme, a segurança da sua direção apareceu em outros filmes da sua filmografia desde Filadélfia (1993), passando por Sob o Domínio do Mal (2004) e chegando em O Casamento de Rachel (2008). Sendo, ainda assim, O Silêncio dos Inocentes o seu filme mais lembrado: em parte pelas atuações de Jodie Foster e Anthony Hopkins, mas também pela boa forma de contar a história sem deixá-la em nenhum momento cair em situações sem sentido.

Jornalista e mestre em Mídias Digitais. Toma conta das redes sociais do Goodfellas.

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