Cinema

Inesquecíveis 014 – Cabra Marcado para Morrer (1984)

Quando o cineasta brasileiro Eduardo Coutinho escreveu as primeiras linhas do roteiro de Cabra Marcado para Morrer (1984) o filme deveria ter sido rodado normalmente em 1964 e contar a história do camponês João Pedro Teixeira, assassinado por ordem dos latifundiários que se autointitulavam donos das terras do interior de Recife. A ideia de Coutinho era fazer uma obra semidocumental com os próprios camponeses moradores da região interpretando suas próprias vidas.

Porém, o golpe militar de 1964 impediu as filmagens de Cabra Marcado para Morrer, com a equipe sendo cercada por militares que queriam prendê-los por acreditarem que estes eram “cubanos e comunistas”. Alguns conseguiram fugir, outros realmente foram presos. No meio da confusão, Coutinho conseguiu sair com parte do pouco material que havia sido filmado e mais algumas outras fotografias que deveriam fazer parte do filme. Ao retomar o projeto dezessete anos depois, Eduardo Coutinho reconta essa história e reencontra algumas daquelas pessoas que ele teve a oportunidade de conhecer na década de 60.

Por isso que falar e analisar Cabra Marcado para Morrer é também fazer uma análise e um passeio pela própria história do Brasil durante a ditadura militar que aqui fora instalada. O filme dirigido por Eduardo Coutinho traz uma peculiaridade que tornaria a sua marca registrada a cada novo filme lançado: o trato humano que ele dava a cada pessoa (ou tema) que ele escolhia para os seus documentários. Quando ele volta a Galiléia e Sapé, muito mais do que estar preocupado em filmar um documentário, Coutinho primeiro faz questão de exibir as imagens que ele e sua equipe conseguiram salvar daquele filme de 1964, causando comoção nos fazendeiros que puderam se ver como eles estavam dezessete anos antes.

É um trato que Coutinho estabelece desde o primeiro contato com os camponeses moradores da região da Galileia e Sapé, que organizaram uma Liga dos Camponeses (uma espécie de Sindicato, mas que não levou esse nome justamente com medo de represálias) que pudesse lutar pelos direitos desses fazendeiros contra o poder dos grandes latifundiários que queriam tomar as terras que eram de direito dessas pessoas. Pobres e nitidamente sem qualquer nível escolar, eles estudavam como podiam e viviam da maneira que conseguiam. Interessado em contar a história do líder comunitário que foi assassinado e o corpo deixado à beira da estrada, Coutinho invade a questão que ainda hoje perdura em regiões remotas do Brasil quando assistimos vez ou outra chacinas que matam dezenas de camponeses iguais ao próprio João Pedro Teixeira.

Cabra Marcado para Morrer conta essa história, mas o interesse agora está em passar a limpo a vida da viúva Elizabeth Altino Teixeira, mãe de dez filhos, e que depois que perdeu o marido assassinado passou a viver na clandestinidade, com identidade falsa e se escondendo daqueles que queriam matá-la – e também os seus filhos. Por causa das ameaças, cada uma das crianças foram pouco a pouco sendo “abandonadas”, deixadas em casas de parentes e durante dezessete anos nunca mais se viram – em alguns casos, sequer se conheceram. Cabra Marcado para Morrer tenta reconciliar essa família, quase como uma tentativa de reparação histórica por aquilo que eles tiveram que passar durante esses anos.

Coutinho percorre esse caminho magistralmente, seja conduzindo com imensa sabedoria as entrevistas que realiza com Elizabeth Altino, parentes e filhos, ou mesmo quando convence o pai de Elizabeth a dar um depoimento ainda que fale pouco e demonstre estar contrariado em fazer aquilo. Mas é o tipo de verdade que vemos em toda a filmografia de Eduardo Coutinho, capaz de causar indagação a um certo entrevistado que pergunta ao documentarista se é tudo simples mesmo daquele jeito quando ele chega com apenas um assistente com uma câmera enquanto segura um microfone pronto para colher mais um depoimento, que a qualquer momento nos fará chorar ou causará revolta, ou quando os entrevistados se sentem amigos do diretor como quem assiste também parece se sentir.

Toda vez que reassisto Cabra Marcado para Morrer, tenho a impressão de que o intervalo de dezessete anos deu a Coutinho a possibilidade de se questionar mais, de investigar mais. O que dá para lamentar é a forma como esse intervalo se deu, por obrigação uma vez que toda a equipe estava agora sendo perseguida da mesma forma que aqueles camponeses nas cidades onde viviam, sendo cada vez mais colocados contra parede e buscando meios de sobrevivência. Cabra Marcado para Morrer torna o relato do assassinato de João Pedro Teixeira universal, porque muitos outros camponeses que foram mortos tiveram suas famílias passando pelo mesmo inferno e separação que a de João Pedro.

A despedida ao final do filme entre Coutinho e Elizabeth traduz a importância que esse filme teve na vida dos dois: a Coutinho, por ter tido a oportunidade de conhecê-la e poder contar a história do seu marido e dessa família destroçada por um conflito; e a dela por ter conhecido Coutinho e ter a sua trajetória relatada que lhe deu a chance de se reencontrar com os filhos que estavam, assim como ela, desaparecidos no mundo. Por isso que Cabra Marcado para Morrer é um filme tão importante, um documentário que será para sempre citado como um marco da história do Brasil.

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