Hiroshima, meu amor (1959) é o filme de estreia em longa-metragem do cineasta francês Alain Resnais. E algumas das decisões tomadas por ele para essa obra que inaugura a sua enorme e obrigatória de assistir filmografia, são de um diretor experiente que sabe muito bem o que deseja fazer com o seu filme e o que quer transmitir para o público. Juntamente com Os Incompreendidos (leia aqui), de François Truffaut, Hiroshima, meu amor abre o movimento da Nouvelle Vague que dali em diante o mundo começaria a prestar muito mais atenção nesses diretores.

De imediato, Alain Resnais decide não mostrar os rostos do seu casal de apaixonados que estão vivendo um amor em Hiroshima. Com uma carreira até então formatada em curtas de documentários (Guernica, Toda a História do Mundo e Noite e Neblina são alguns bons títulos dessa fase), Resnais chama a nossa atenção para a devastação da cidade e da sua população que sofrem as consequências do bombardeio atômico que dizimou o lugar na época e praticamente encerrou a 2ª Guerra Mundial àquela altura.

Os primeiros rostos que vemos são de pessoas desfiguradas, corpos mortos entrelaçados em pilhas que trazem uma confusão de sentimentos quando vemos o entrelaço dos corpos de Elle (Emmanuele Riva) e Lui (Elji Okada), abraçados na cama de um hotel em Hiroshima enquanto revivem memórias e se declaram apaixonados. Hiroshima, meu amor não é um filme apenas de ficção, mas também uma obra documental que se preocupa em exibir passeatas em homenagens aos mortos, revisitar locais históricos onde um enorme vazio foi deixado quando as bombas caíram e chamar atenção para os males do conflito para que se volte a repetir.

A atriz francesa Emmanuele Riva basicamente interpreta ela mesma enquanto participa de um filme anti-guerra na cidade de Hiroshima. Durante as filmagens, ela conhece o arquiteto japonês Lui e os dois passam a ter um relacionamento. Mas a relação entre eles desperta memórias dolorosas em Elle, que começa a relembrar da sua juventude quando estava apaixonada por um soldado alemão na pequena cidade francesa de Nevers onde ela morava com a família. O soldado foi morto antes que eles pudessem fugir, e ela ficou para sempre marcada por ter se relacionado com o inimigo e sofreu duras penas da sua família e dos moradores da região, sendo inclusive trancada em um porão apertado onde seus pais usavam para estocar vinhos.

Em um estilo documental de narração que marca também o próximo trabalho de Alain Resnais em O Ano Passado em Marienbad (1961), Hiroshima, meu amor tem um roteiro angustiante escrito por Marguerite Duras (indicada ao Oscar) que transforma o amor que Elle sente pelo arquiteto japonês em mais uma jornada de dor humana à medida que ela mesma começa a entender que está mais uma vez entrando em um relacionamento marcado pela impossibilidade. Não mais agora pela guerra e por um conflito que os afastaria de qualquer jeito por estarem em lados contrários do conflito, como ela viveu com o soldado alemão, mas pelo fato de que ela está prestes a deixar Hiroshima para retornar para casa e por saber que Lui também é casado e tem filhos, assim como ela.

Ambos devem aproveitar aqueles dois dias que estão tendo, mas sabem que precisarão voltar para a realidade uma vez que precisam se despedir um do outro e continuarem vivendo suas vidas. Esse amor passageiro toma conta do filme de Resnais por causa do bom roteiro de Duras, que capta a rapidez como as coisas que eles estão vivendo vão passando depressa por suas vidas sem que possam de fato desfrutar. Pioneiro no uso de cortes para mostrar flashbacks, uma técnica que foi sendo aprimorada com o tempo graças ao uso e influência de Alain Resnais (que volta a utilizar o mesmo método em O Ano Passado em Marienbad), Hiroshima, meu amor também contribuiu para apontar os caminhos para a modernidade do cinema em se aprimorar na arte de contar histórias.

A sensibilidade de Alain Resnais em realmente criar uma obra pacifista depois de quatorze após o fim da Segunda Guerra Mundial ao assumir seu tom documental e de fazer o espectador observar o que a humanidade fez, exatamente o mesmo impacto que o diretor George Stevens sofreu quando filmou as imagens dos campos de concentração em seu período na guerra, é tão importante quanto a sua destreza nos quinze minutos finais de filme quando Resnais deixa a ficção tomar conta da tela terminando o trabalho de nos conquistar por completo.

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