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Inesquecíveis 016 – Terra em Transe (1967)

Terra em Transe completa nesse ano de 2017 50 anos de seu lançamento. E que ano para se fazer aniversário tão importante, não? O filme dirigido e escrito por Glauber Rocha está mais do que nunca vivo e próximo da realidade que o cineasta pensou há 50 anos. Impressionante como o modus operandi da política que oprime o seu povo continua intacto, quiçá ainda mais robusto do que naquele tempo ainda de subdesenvolvimento em todas as áreas.

Sem circular durante um bom tempo por causa da ditadura, Terra em Transe não é um filme sobre esse momento político. Claro que reflete sobre ele, mas é muito mais sobre as práticas políticas, e da personalidade dos políticos que mais e mais querem poder para controlarem o sistema, que fazem do país fictício de Eldorado semelhante a qualquer outro país aqui da América Latina, mais precisamente o Brasil.

A história segue o senador Porfírio Diaz (Paulo Autran) e sua pretensão de se tornar Imperador de Eldorado. Mas nessa caminhada surgem ainda muitos outros políticos também interessados no mesmo poder e dispostos a enfrentar Porfírio Diaz. Apoiado pelo poeta e jornalista Paulo Martins (Jardel Filho), ele se afasta de Diaz quando percebe que seus reais motivos para alcançar o poder estão longe de trazer melhorias para a população e desenvolver políticas públicas capazes de combaterem a fome, a desesperança e o desemprego. Sua descrença no candidato que antes apoiava o afasta da política enquanto o aproxima da luta armada, confiando ser este o único caminho para devolver ao povo o protagonismo que ele merece.

Com o movimento do Cinema Novo já reconhecido não só no Brasil como mundialmente, Terra em Transe apresenta um Glauber Rocha ainda mais alegórico do que em seus outros trabalhos quando havia alguma estrutura por trás da narrativa. Terra em Transe definitivamente não tem esse compromisso e foi por causa disso que o filme dividiu tantas opiniões – e ainda hoje divide. De qualquer maneira, Terra em Transe é um filme que tem a marca corajosa de Glauber Rocha de ser ousado e de confiar na agressividade do próprio roteiro o justificando pelo imediatismo que a trama oferece, formada por personagens cujas ideologias se esbarram na própria incapacidade deles de decidirem o que querem além do poder, isto é, todos querem governar mas nenhum deles sabem como ou por que.

Terra em Transe é aquele filme que quanto mais se assiste menos se compreende. E esse não é o ponto negativo do filme. A montagem de Eduardo Escorel que tenta dar forma às imagens de Glauber Rocha apresentam novos significados a cada nova visita a este clássico do cinema brasileiro. Em tempos de um Brasil tão castigado pela má condução política dos políticos que ajudamos a eleger (e outros que chegaram ao cargo se aproveitando da crise e das brechas de uma Constituição que apenas é seguida quando se tem vontade), Terra em Transe continua relevante mesmo 50 anos depois do seu lançamento. Esse é o tamanho do legado deixado por Glauber Rocha e do movimento Cinema Novo liderado por ele nos anos 60.

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